Por que não é um caso isolado? Só para citar dois exemplos. Segundo dados da Delegacia do Idoso, casos de violência contra idosos crescem a cada ano no Piauí. Foram 1.500 registros em 2015 e só nos primeiros meses deste ano já foram 1.000 casos. O levantamento aponta, ainda, que 74% das ocorrências correspondem à violência domiciliar. No Distrito Federal, as estatísticas mostram que 59,9% dos atos violentos são cometidos por parentes.

Temos acompanhado a movimentação da filha Bebel, 38 anos, para conseguir na Justiça autorização para arrombar a porta do apartamento do pai que se recusa a abri-la. Ele mora com uma amiga no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro.

João Gilberto, 86 anos, é um ermitão desde sempre. A justificativa para a violência é que o idoso está mal alimentado e precisa de uma avaliação  médica. João, de quem fui uma “amiga telefônica” durante mais de 40 anos, continua sendo ele mesmo. Ele detesta médicos e só saía de casa à tardinha, de táxi, disfarçado, para passear pela orla. A comida era deixada no tapete quando recebida e no mesmo lugar para ser retirada.

Sei de pouquíssimas pessoas que estiveram pessoalmente com ele ao longo dos anos.

Me pergunto por que o seu jeito de ser agora é rotulado como resultado de demência senil, desnutrição e pobreza?

Thereza Christina Jorge, editora do Arte de Envelhecer

“No caso brasileiro, as violências contra a geração acima de 60 anos se expressam sob as mais diferentes formas. No âmbito das instituições de assistência social e saúde são frequentes as denúncias de impessoalidade, maus tratos e negligências. E, nas famílias, abusos e negligências, discriminações e preconceitos, choque de gerações, problemas de espaço físico, dificuldades financeiras, costumam se somar a um imaginário social que considera a velhice como ‘decadência’ do ser humano. 

Assim, a violência contra a pessoa idosa aqui será tratada a partir de três parâmetros: aspectos sócio-demográficos que esclarecem o que o crescimento populacional significa em termos de conquista e de desafios para que a população acima de 60 anos seja incluída, no desenvolvimento nacional; aspectos sócio-antropológicos que apontam a diversidade de situação desse grupo, assim como os preconceitos que prejudicam o envelhecimento positivo e saudável da população brasileira; aspectos sócio-epidemiológicos que evidenciam a dimensão da morbimortalidade por violência deste grupo populacional e discutem também as formas visíveis e invisíveis de violência que insidiosamente corrompem a confiança e a energia das pessoas idosas do nosso país. 

A Organização Mundial de Saúde chama atenção para a urgência de ações integradas que possibilitem melhorar a qualidade de vida das pessoas que envelhecem. Os conceitos de envelhecimento ativo, positivo e saudável enfatizam o processo de otimização das oportunidades para sua saúde, sua participação social e sua segurança. 

Como país membro da ONU, o Brasil possui hoje um conjunto de leis e dispositivos excelentes que se baseiam nas Convenções Internacionais e que são da maior importância para fundamentar o envelhecimento saudável. No entanto, a prática está longe da teoria da mesma forma que a intenção está longe do gesto. 

Este trabalho é mais um dentre tantos aportes, para pensarmos as questões pertinentes ao tema. Por isso, esperamos que este manual sirva de instigação, de provocação e de incentivo para que toda população complete com sua experiência e sabedoria. 

Por fim, mas não menos importante é preciso investir na prevenção das situações que aumentam a probabilidade de a pessoa idosa se tornar dependente ou de acumular comorbidades (dois ou mais diagnósticos). Como já dissemos, o idoso/a dependente é o que tem maiores probabilidades de sofrer violências institucionais, sociais, culturais e familiares. 

Muitos desses cuidados já foram mencionados como é o caso prevenção das quedas, de acidentes domésticos, de acidentes no trânsito e nos transportes. Embora o número que hoje necessita de cuidados especiais seja relativamente pequeno em comparação com o número total da população brasileira acima de 60 anos, os custos sociais das famílias e dos serviços de saúde para uma pessoa idosa doente e dependente são muito elevados. Sabemos também que os equipamentos hospitalares e ambulatoriais não estão devidamente prepara- dos para atendê-los. 

Uma política bem delineada e intersetorial de inserção social, de atividade física e até laboral, de lazer, de participação social dentre outros elementos fará que o número de dependentes constitua uma razão cada vez menor da hoje existente. Porém, os estudos (Baltes & Smith, 2006) mostram que tendência de crescimento do número de idosos/as com 80 anos ou mais, em todo mundo, constitui hoje um desafio para as famílias e os sistemas de saúde e de proteção, pois é a partir de então que as várias limitações, comorbidades e dependências se instalam. Nunca podemos esquecer de que hoje é esse grupo de pessoas idosas o que mais cresce no país. 

Simultaneamente, portanto, precisamos dar continuidade e aperfeiçoar o ambiente de segurança que vem com a aposentadoria e vários outros tipos de benefício social que fun- cionam no Brasil por meio de políticas sociais inclusivas — visando a uma velhice saudável, ativa e positiva, e cuidar daquelas pessoas que têm dependências, perderam sua autonomia e estão em situação de pobreza ou de adoecimento. 

Estratégias de ação 

Investir numa sociedade para todas as idades 

Segundo todas as convenções internacionais, os governos devem priorizar os direitos da pessoa idosa 

Contar com a pessoa idosa: “nada sobre nós sem nós” 

Apoiar as famílias que abrigam pessoas idosas em sua casa 

Criar espaços sociais seguros e amigáveis fora de casa 

Formar profissionais de saúde, assistência e cuidadores profissionais 

Prevenir dependências. “ 

Do Manual de Enfrentamento à Violência contra a Pessoa Idosa da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República,  2014 

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Sobre mim

Meu nome é Thereza Christina Pereira Jorge, sou carioca, mãe de dois filhos, jornalista. Fui repórter-editora nos jornais O Globo e sucursal Rio de O Estado de São Paulo. Trabalhei nas revistas femininas da Editora Bloch e na revista Isto É, também na sucursal. Sou formada em Ciências Sociais pela UFRJ. Este blog é muito biográfico porque estou descobrindo e praticando o que a OMS definiu como Envelhecimento Ativo. Amo a vida e o viver.




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