“Qual é o problema com Jane Fonda?” Essa pergunta, feita pelo presidente Richard Nixon em 1971, abre um novo documentário da HBO sobre a atriz e ativista política. Resplandecente num traje imitando pele de animal, cabeleira loura e olhos azuis ainda eletrizantes, Jane Fonda enfrenta as inúmeras entrevistas sobre o novo filme com a segurança, o bom humor e a beleza magnética que fizeram dela o sex symbol que ainda é aos 80 anos. A mulher que desde sempre esteve em nossa cabeça mostra-se relaxada e direta. “Que esmalte é esse que você está usando?”, pergunta olhando para o pé de uma repórter. “É Malaga Wine? Por que esse é o que eu também uso.”
A tentação imediata é perguntar a Jane Fonda quais são os chás de sua dieta, que exercícios ela faz, quem é seu cirurgião plástico. Se o documentário Jane Fonda in Five Acts for um indício, ela não hesitaria em compartilhar essas informações.
Dirigido com uma ingênua sensibilidade por Susan Lacy, o documentário, que começará a ser veiculado nesta segunda-feira, 24, vai além do costumeiro retrato de celebridades. Ele foge da cronologia formal e de factoides do tipo Wikipedia para mostrar um retrato cândido, desarmado e profundo de uma mulher cuja vida pública e privada está inextricavelmente ligada à história recente dos Estados Unidos. Se uma vida bem vivida tem de fato muitos atos, os cinco (por enquanto) da vida de Jane têm sido um revigorante exemplo de uma sempre renovada autonomia e autoconfiança. Solteira, após três casamentos, trabalhando ininterruptamente depois de prometer parar, ela diz que finalmente está de “volta à própria pele”, sendo “o que sempre deveria ter sido”.
Quatro dos “atos” do filme se chamam Henry, Vadim, Tom e Ted, nomes do pai famoso e dos três maridos de Jane.
“Achei ótimo”, diz ela sobre o formato do documentário. “Sempre vi minha vida em diferentes atos, procurando a mim mesma e definida por esses quatro homens. O universo que Lacy capturou, diz ela, “é uma história sobre gênero”.
Uma das cenas recorrentes em Five Acts é um filmete feito pelo pai, o astro de cinema Henry Fonda, de uma Jane ainda garota vestida de Tonto, o índio companheiro do Lone Ranger. Com olhar atento, Jane “patrulha” os arredores da casa da família nas Montanhas Santa Mônica.
A lembrança mais comovente mostrada no filme é de como ela se sentia sozinha, com um pai emocionalmente distante e uma mãe sofrendo de transtorno bipolar severo (Frances Seymour Fonda suicidou-se quando Jane tinha 12 anos). Numa cena, Jane examina uma foto da família claramente feita com fins publicitários. Sua imagem é a de uma garota comum, diz ela, mas “muito daquilo era simplesmente mito”.
Os fatos básicos da vida de Jane são conhecidos: seu início em Hollywood no papel de jovem ingênua; seu casamento com o diretor Roger Vadim, que fez dela o sex symbol Barbarella; seu ativismo político dos anos 1960-70; sua transformação em atriz dramática com filmes como Klute – O Passado Condena e Amargo Regresso; seu segundo casamento, com o estudante ativista que se tornou o político Tom Hayden; o estrondoso sucesso de seu vídeo de exercícios aeróbicos; o terceiro casamento, com o magnata da mídia Ted Turner, que a levou a deixar a carreira; seu recente retorno como atriz, em séries como The Newsroom e Grace and Frankie.
“Houve uma época em minha vida, quando fiz 60 anos, em que me sentia como se fosse parte de uma série programada”, diz ela. “Mas, ao terminar de escrever minhas memórias, em 2006, percebi que tinham sido manifestações diferentes, embora seguindo uma linha contínua. Descobri que sempre havia sido corajosa e curiosa e que não gostava de contemporizar.”
“Essa descoberta foi o verdadeiro motivo do fim de meu casamento com Ted. É algo como ‘mereço respeito e mereço ser amada’, e se alguém não gostar, eu sinto muito”, explica a atriz.
(É preciso dizer que Ted e Jane ainda são “muito, muito próximos”, como ela diz. As cenas do documentário em que os dois aparecem juntos estão entre as mais ternas e cativantes da produção.)
Five Acts, no entanto, deixa algumas perguntas sem resposta, especialmente no que se refere ao trabalho de Jane como atriz.
Ela se lembra de ter atingido novas dimensões com A Noite
dos Desesperados. Mas a técnica por trás de sua grandeza – o que o diretor de fotografia de Klute, Gordon Willis, descreveu como a habilidade de Jane de simplesmente pensar e mostrar isso no rosto – passou largamente despercebida.
“É engraçado”, diz ela. “Posso falar com facilidade sobre uma porção de coisas, mas acho difícil falar sobre a arte de representar. É uma espécie de mistério. De certo modo, sinto-me como se só agora estivesse começando a entender isso. Talvez seja preciso encarar com muito mais seriedade do que encarei. Não é engraçado? Entretanto, agora, quando tenho um novo papel, trabalho com um preparador.”
Jane acabou de ler as “fantásticas” memórias da atriz Sally Field. “Para Sally, representar significa muito mais do que para mim. Ela fala sobre ter se sentido destroçada e sobre como o trabalho de atriz a curou. Isso nunca aconteceu comigo. Atuar nunca me curou de nada. O ativismo sim, mas a atuação, não”.
Como ativista, Jane continua, digamos, ativa. Ela e Lily Tomlin acabam de levantar US$ 200 mil em São Francisco para a One Fair Wage, uma organização de defesa de empregados de restaurante. Jane contribuiu para as campanhas dos democratas Beto O’Rourke e Andrew Gillum, mas vai passar as eleições de meio de mandato lutando pelo direito ao trabalho e pelo direito de voto, e não trabalhando por candidatos.
Ela também está promovendo a conexão entre jovens membros dos movimentos #MeToo e Time’s Up e organizadoras veteranas de movimentos sociais como Karen Nussbaum e Saru Jayaraman.
Está ainda trabalhando numa sequência de sua comédia de 1980 Como Eliminar seu Chefe, que trata de temas como assédio e igualdade de salários em linguagem de cultura pop. Hoje, diz Jane, “há essas novidades de trabalhadores terceirizados e empregados sendo espionados. Se alguém tem seu salário reduzido, ou se uma mulher é demitida por estar grávida, vai reclamar com quem? Eles nem mesmo foram contratados por seus chefes. Mulheres frequentemente têm de ter mais de um emprego e não têm plano de saúde. Se você for mãe solteira, tiver dois empregos e seu filho sofrer de uma doença preexistente, o que você vai fazer? Essas mulheres são heroínas, merecem ser coroadas”.
Jane ainda sofre as consequências da indignação que causou nos Estados Unidos ao visitar Hanói em 1972 para criticar o prosseguimento da guerra e ser filmada rindo e batendo palmas sobre um canhão antiaéreo norte-vietnamita. Ela já se desculpou inúmeras vezes pelo episódio e faz isso de novo no documentário. Vendo por outras lentes, Jane estabeleceu os parâmetros de se desculpar em público décadas antes de isso se tornar um ritual na mídia social.
De fato, ela pede desculpas várias vezes ao longo de Five Acts – não apenas a veteranos do Vietnã, mas para sua mãe e sua filha Vanessa, que se sentia abandonadas quando Jane embarcava numa nova aventura artística ou política.
“Se não assumir seus erros, você nunca vai crescer, nunca vai aprender”, diz ela. “Assumir responsabilidades e saber perdoar, inclusive a você mesma, são duas coisas críticas para se envelhecer bem.”

Atuar nunca me curou de nada. O ativismo, sim”

O Estado de S. Paulo /THE WASHINGTON POST

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Sobre mim

Meu nome é Thereza Christina Pereira Jorge, sou carioca, mãe de dois filhos, jornalista. Fui repórter-editora nos jornais O Globo e sucursal Rio de O Estado de São Paulo. Trabalhei nas revistas femininas da Editora Bloch e na revista Isto É, também na sucursal. Sou formada em Ciências Sociais pela UFRJ. Este blog é muito biográfico porque estou descobrindo e praticando o que a OMS definiu como Envelhecimento Ativo. Amo a vida e o viver.




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