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Senhor,

sabes melhor do que eu que estou envelhecendo,

e que, mais dia menos dia, farei parte dos velhos.

Guarda-me daquela mania fatal

de acreditar que é meu dever dizer algo a respeito de tudo

e em qualquer ocasião.

Livra-me do desejo obsessivo

de pôr ordem nos negócios dos outros.

Torna-me refletida, mas não ranzinza,

serviçal, mas não autoritária.

Acho uma pena não utilizar toda a imensa reserva de sapiência que

acumulei por longos anos,

mas bem sabes, Senhor…

faço questão de conservar alguns amigos.

Segura-me quando eu começar a desfiar detalhes que não acabam mais,

dá-me asas para ir direto ao fim.

Sela meus lábios acerca de minhas mazelas e doenças,

embora essas aumentem sem cessar,

e, com o passar dos anos,

me dê certo prazer enumerá-las.

Não me atrevo a pedir-te

que eu chegue até a gostar de ouvir as outras

quando desenrolam a ladainha dos próprios sofrimentos,

mas ajuda-me a suportá-las com paciência.

Não me atrevo a reclamar uma memória melhor,

dá-me porém uma crescente humildade

e menos suscetibilidade,

quando a minha memória esbarrar na dos outros.

Ensina-me a gloriosa lição

de que pode até acontecer que me engane…

Toma conta de mim.

Não é que eu tenha tanta vontade de ficar santa

(com certos santos é tão difícil viver junto!)

mas um velho, além de velho, amargo,

é com certeza uma das supremas invenções do diabo.

Faze-me capaz de ver algo de bom

onde menos se espera,

e de reconhecer talentos,

em gente na qual estes não se percebem.

E dá-me a graça de proclamá-lo.

Amém.

 

Oração feita por uma monja inglesa do século XVII

Tradução de Dom Marcos Barbosa

Pesquisa de Edinha Diniz

Ilustração Pinterest

 

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Sobre mim

Meu nome é Thereza Christina Pereira Jorge, sou carioca, mãe de dois filhos, jornalista. Fui repórter-editora nos jornais O Globo e sucursal Rio de O Estado de São Paulo. Trabalhei nas revistas femininas da Editora Bloch e na revista Isto É, também na sucursal. Sou formada em Ciências Sociais pela UFRJ. Este blog é muito biográfico porque estou descobrindo e praticando o que a OMS definiu como Envelhecimento Ativo. Amo a vida e o viver.