Municípios como Putinga, localizado no Vale do Taquari, apostam em um controle rigoroso desde março

Municípios como Putinga, localizado no Vale do Taquari, apostaram em um controle rigoroso desde março

Pelo levantamento da pasta, até o fechamento desta edição apenas 30 municípios gaúchos ainda não haviam tido registros de pessoas com a doença. Isso significa 6% das 497 cidades. No auge da contaminação pelo vírus, o Jornal Cidades foi conhecer a realidade de três comunidades para saber: afinal, por que a doença que assombra o mundo não chegou até lá?

Entre Aceguá, Rolador e Putinga, há semelhanças. São cidades com população pequena, com poucos recursos na área da saúde e com uma predominância de idosos, listados no grupo de risco. No entanto, cada uma adotou uma estratégia própria para evitar que a pandemia se instale no território e atinja a comunidade. O município de Aceguá, que fica no sul do Estado, tem na parceria com sua homônima uruguaia uma das principais armas para chegar ao número zero de casos de Covid-19. O trânsito de pessoas na fronteira seca é grande diariamente, seja de pessoas do Uruguai, que chegam à cidade para trabalhar ou fazer compras, seja de brasileiros, que vão ao outro lado para as residências, visitar amigos ou buscar oportunidades.

Com população de 4,9 mil pessoas, a brasileira Aceguá adotou, desde março, protocolos para monitorar pessoas com síndrome gripal. As primeiras medidas envolveram afastar pessoas do grupo de risco, como idosos e pessoas com doenças crônicas. Pessoas com sintomas eram indicadas a fazer um período de quarentena por 14 dias. Durante o período, ela era testada para saber se havia contraído a Covid-19. Desde então, foram feitos 226 testes (o que significa que uma em cada 21 pessoas da cidade fizeram os exames), sem nenhum caso positivo.

O prefeito de Aceguá, Gerhard Martens, médico e cirurgião vascular, saudou a parceria com os uruguaios, que envolveu até o envio de lotes da vacina contra a Influenza para a cidade. Foram 400 doses mandadas pelo governo do Uruguai. “Fizemos um monitoramento permanente na cidade e, acredito que por isso, chegamos até aqui sem casos”, disse o prefeito.

Idosos, que são do grupo de risco, são dois terços dos habitantes da cidade

 

A enfermeira chefe da Unidade Básica de Saúde (UBS) de Rolador, Cristiane Nunes Mayer, conta que desde março é feita uma busca ativa por pessoas que saíram da cidade e/ou tiveram contato com moradores de outras cidades. Foi criado um protocolo de quarentena para quem chega de fora. Conforme o boletim epidemiológico mais recente da secretaria de saúde, foram realizados 32 testes rápidos (média de um em cada 71 habitantes), sem resultados positivos.

Cristiane salienta que, em 2020, percebeu uma queda acentuada no número de pacientes com síndromes gripais no posto em relação aos anos anteriores. Para ela, o uso de máscaras e o isolamento social contribuíram para esse quadro. “A circulação de pessoas reduziu. Além disso, com as máscaras, torna-se mais difícil o contágio por causa da proteção. Começamos cedo com a obrigatoriedade, já em março. Outro fator que contribui é a suspensão das aulas, pois as crianças acabam sendo vetores”, explica.

A enfermeira reitera que os agentes de saúde percorrem as casas com instruções aos moradores para a prevenção. Dentre elas, estão a recomendação de não fazer viagens e evitar o deslocamento até Cerro Largo e São Luiz Gonzaga, cidades próximas de Rolador. “Temos uma realidade de município pequeno, é mais fácil controlarmos a população e isolarmos suspeitos”, afirma.

Putinga tem um hospital para atender casos de pequena e média complexidade, o Doutor Óscar Benévolo. Nele, foram criados dois leitos exclusivos para pacientes infectados pelo coronavírus, mas os leitos ainda não foram utilizados. A cidade recebeu também um respirador. Casos mais graves são levados para tratamento em outras localidades.

Para o médico da instituição, Paulo Lima, que integra o comitê de controle à doença, é improvável que Putinga não registre ao menos um caso, em razão da alta circulação do vírus. O objetivo, segundo ele, é controlar os danos. “Temos uma estrutura para casos menos complexos. Queremos evitar, se a doença chegar aqui, que precisemos de internações em UTI e minimizar o dano à população”, afirma.

Paulo ressalta que o número zero de casos não pode se refletir em relaxamento das medidas já consagradas, como higienização constante, uso do álcool em gel, isolamento e distanciamento social por parte da população. “Queremos terminar a pandemia zerados, mas, para isso, dependemos da comunidade”, enfatizou.

Jornal do Commercio