China acorda para a inclusão digital dos Idosos

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Na última semana, circularam na internet chinesa vídeos de idosos sendo discriminados por não dominar tecnologias digitais. As imagens comoveram a opinião pública, e obrigaram o governo a tomar providências. A China, que se orgulha de ser a primeira sociedade do mundo a adotar pagamentos digitais, praticamente extinguiu o uso do papel moeda e também acorda para a inclusão digital.

Um dos vídeos mais compartilhados mostrava uma senhora idosa tentando regularizar, em vão, seu plano de saúde. Como ela não havia configurado o pagamento móvel no celular e insistia em pagar em dinheiro, a atendente recusava-se firmemente a receber a quantia. A funcionária justificava que as notas poderiam estar contaminadas com o vírus da Covid-19. Diante do impasse, a mulher foi deixada sozinha no centro de atendimento.

Outros casos de grande comoção envolvem idosos em diferentes cidades, como Harbin e Fushun (ambas à nordeste da capital Pequim). Eles foram expulsos do transporte coletivo por não conseguirem apresentar ao motorista o código QR que revelava suas condições de saúde.

Na China, o código é baixado por meio de aplicativo de celular e os usuários respondem a uma série de perguntas, como histórico de viagens realizadas, contato com pessoas e lugares e sintomas de saúde. Baseado nas informações, o aplicativo emite uma cor verde, amarela ou vermelha. Como é obrigatório apresentar o QR code de saúde em todos os lugares, a entrada em estabelecimentos e serviços públicos só é permitida se a cor estiver verde (saudável).

Incidentes dessa natureza lembram à China que uma parcela importante da população está ficando sem acesso a serviços essenciais por falta de inclusão digital. Cidadãos que, apesar da pouca familiaridade tecnológica, são economicamente estáveis e têm excelente poder aquisitivo.

Desde novembro, o governo vem anunciando medidas para diminuir o abismo digital da população sênior. Uma diretriz emitida pelo Conselho de Estado da China estabelece a criação de mecanismos de longo prazo para superar a “divisão digital” entre as pessoas mais velhas até 2022.

Em dezembro, o Ministério dos Transportes se reuniu com oito dos maiores operadores de carona do país, incluindo a Didi Chuxing (controladora da 99) e a Gaode, para discutir formas de tornar as viagens mais amigáveis para os idosos. A Gaode, financiada pelo Alibaba, lançou novos serviços para esse público, tendo funções como um clique de carona que não exige a digitação do destino, além do serviço ter letras maiores para facilitar a leitura.

Foi nessa época que o banco central chinês determinou que nenhuma empresa pode recusar pagamentos em dinheiro. A autoridade monetária também anunciou que 16 organizações foram multadas pela violação de direito.

O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação iniciou um programa para tornar 115 sites de serviços públicos e 43 aplicativos em transporte, redes sociais, e-commerce, saúde e outras áreas de idosos mais fáceis de navegar. Os principais aplicativos da China foram naturalmente incluídos: WeChat, Alipay, JD, Douyin e Ctrip.

De olho em um mercado trilionário

As empresas também estão se esforçando para acolher – e fidelizar, é claro – o público maduro. Em conjunto com o governo, as gigantes de tecnologia estão criando serviços online mais acessíveis para atender a um público que experimentou e gostou de fazer compras online durante o pico da pandemia no ano passado.

Com ajuda dos netos e pessoas mais jovens, o público idoso e os não adeptos à tecnologia começaram comprando verduras e frutas pela internet. Diante das experiências bem sucedidas, expandiram rapidamente suas compras para itens não essenciais.

A varejista online JD, por exemplo, recrutou assistentes em suas lojas físicas para ajudar os clientes idosos a entender tudo, desde pagamentos digitais até serviços de robôs. Na sua rede de supermercados Seven Fresh, a JD orienta o público maduro a fazer pedidos online, que são entregues nas casas em horários específicos.

Da mesma forma, nas redes de farmácia da JD, os clientes podem esperar pelos medicamentos comprados em um sofá dentro da loja e pagar online com a ajuda de assistentes. Além disso, há profissionais de saúde preparados para dar aconselhamento médico.

Essas são algumas iniciativas que as empresas estão criando para o público maduro. As motivações são altruístas e também econômicas. A economia prateada na China, formada por um público acima de 50 anos, deve movimentar 5,7 trilhões de renminbi (RMB), ou cerca de US$ 882 bilhões, até dezembro de 2021. É o que revela um estudo da consultoria chinesa iMedia Research.

Não só na China, mas no mundo todo, a economia prateada tem alto potencial. Ele representa a terceira maior economia do mundo e a expectativa para 2020 é de movimentar 15 trilhões de dólares. No Brasil, esse número é de 1,8 trilhão de reais (ou aproximadamente 360 bilhões de dólares), de acordo com a Harvard Business Review & Locomotiva.

Estamos falando de um mercado que tende a crescer ao longo dos anos no mundo todo, impulsionado pelo envelhecimento mundial e queda da taxa de natalidade. Um público que há muito tempo deixou o estereótipo de velhinhos simpáticos dos comerciais e filmes mais antigos que ficavam em casa jogando cartas, vendo TV ou ensinando alguma coisa aos netos. As empresas que quiserem participar desse mercado terão que se preparar para fazer ofertas a pessoas ativas e cheias de disposição para praticar esportes e trabalhar.

gazetadopovo.com.br

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