Franqueza, a virtude do Envelhecer

maio 9, 2016 0 Por Thereza Christina Pereira Jorge



Betty Milan, 72 anos,  é uma escritora e psicanalista brasileira. Autora de romances, ensaios, crônicas e peças de teatro. Suas obras também foram publicadas na França, Argentina e China. Aqui o comentário do UOL sobre seu último livro “A Mãe Eterna”, que trata da maternidade, envelhecimento, morte a partir de um gênero que a escritora define como autoficção. Suas vivências foram e estão registradas nos seus livros.

“Se eu pudesse te dar de novo a vida… Fazer você nascer de mim como eu nasci de você…” é a abertura de “A Mãe Eterna”, novo romance de Betty Milan. Formada em medicina, a escritora e psicanalista adota o gênero da autoficção em seus escritos.
Em uma entrevista sobre seu livro “Carta ao Filho” (Record, 2013), em que explora a experiência da maternidade, ela já dizia que todos os seus textos são autoficcionais, “porque não há subjetividade que eu conheça melhor do que a minha”.

Em “A Mãe Eterna”, Milan desenvolve outro tipo de maternidade: a relação de se tornar mãe da própria mãe –e a angústia causada por essa missão, muitas vezes sentida como um fardo.
Não se trata de uma autobiografia como “Carta ao Filho”, mas um romance com referências pessoais. A autora usa a escrita para lidar com a dor de cuidar de sua mãe, já muito idosa. É um livro de bolso que pode ser lido numa tacada só, dividido em cartas escritas por uma filha-narradora a uma genitora imaginária diante da dificuldade de se comunicar com uma pessoa de 98 anos.

O livro toca, sem aprofundar, em desafios fundamentais dos nossos tempos, repletos de tabus sobre a morte. Humanização do final da vida, testamento vital e a possibilidade de termos liberdade para decidimos sobre o próprio fim são dúvidas de uma sociedade cada vez mais longeva.

O sentimento de impotência perante o espanto de ver um ser amado em decadência torna-se insuportável. “Me sinto tão encarcerada pela missão atual quanto você pela idade. Somos reféns do tempo. As duas”, escreve Milan.
A situação leva a narradora a discutir o suicídio assistido como uma opção e a concluir que “morrer é um direito” –subtítulo do livro.

Resistir à perda da independência é um triunfo, e a filha se debate com a necessidade de privar a mãe, uma mulher forte e livre, de fazer o que bem entende. “A vida não é digna de ser vivida sem independência”, afirma ela.
Também entende que o “não”, dito com frequência pela mãe, é uma tentativa de afirmação dessa independência.

É um relato sincero, sem pudores, que assume, por exemplo, uma vontade de não ter que cuidar da mãe: “Preciso me opor à tendência de me afastar de você. A cada dia que passa, o cumprimento da missão se torna mais difícil”.

A postura dos médicos é muitas vezes classificada como narcisista, na medida em que buscariam retardar a morte como uma vitória da medicina em detrimento da qualidade de vida do paciente.

Mãe e filha esperam pelo fim, cada uma a seu modo. A genitora, desapegando-se das coisas, dando à filha joias e jogos de talheres. A filha sente tudo intensamente, ora com revolta, ora com amor e compaixão. Mas sempre com extrema franqueza –uma bonita marca do livro.

A filha encontra conforto na escrita, capaz de transformar o espanto em respeito e ajudar na digestão da dor e da solidão. “Se os livros falassem mais com os mortos, a vida seria melhor. O morto não escuta e não fala, porém o livro fala com ele para responder a si mesmo”. 

A Mãe Eterna, editora Reccord, R$ 32,90, 144 páginas