Kalache responsabiliza CNDI pelo risco de gerontocídio

Em entrevista ao programa Sem Censura Especial (TV Brasil)  de ontem, terça-feira, o especialista em envelhecimento Alexandre Kalache afirmou que a voz do idoso não está sendo ouvida sobre a sua vulnerabilidade enquanto grupo de alto risco ao Covid-19. Para ele, a falta de legitimidade do atual Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDI)  do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, explica ausência do protagonismo dos idosos brasileiros. E o risco de um gerontocídio desse grupo. (Gerontocídio é Senicídio ou geronticídio, é o abandono à morte, suicídio ou assassinato de idosos.) 

A voz do idoso está sendo ouvida?

A voz do idoso não está sendo ouvida. Nada nos atinge mais fortemente como idosos (74 anos), grupo de alto risco, do que ouvir entrevistas e entrevistas e saber que todas os especialistas as vozes são ouvidas menos as dos idosos. Será que nós não temos o que dizer? Temos, muito. E a organização da sociedade civil é que deveria estar atuante. A quem deveria caber esse papel? Ao Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDI) que não tem essa articulação talvez porque lhe falte legitimidade ele acaba não coordenando este esforço para que nós sejamos protagonistas e uma voz relevante.

Há um certo preconceito? E de que forma ele acontece?

O que acabei de dizer é uma demonstração tácita do preconceito. É como se o velhinho fosse passivo, não tem o que falar. É exatamente este preconceito que esta pandemia está revelando de forma gritante. Num país hedonista, onde o que vale é não ter rugas, ‘ser sarado e estar sempre bonitão, E aqui nós estamos nos confrontando com uma situação muito grave. Se o isolamento horizontal não for mantido, os velhinhos serão infectados em massa. “E não só os velhinhos porque devido às condições de vida e de saúde, no Brasil, as pessoas de 50 anos já apresentam diabetes e pressão alta, sintomas de envelhecimento.”

Carta Aberta – No dia 27 de marco, a Diretoria e Conselho Consultivo do Centro Internacional de Longevidade Brasil divulgou uma Carta Aberta ao órgão, alertando para: 

“A pandemia Covid-19 traz para o centro da cena aqueles cidadãos que têm estado por tanto tempo invisíveis para a sociedade: as pessoas idosas. Elas representam o grupo mais vulnerável às complicações da doença, inclusive o óbito. Envelhecer em um país com alto índice de desigualdade social intimamente ligada às questões de raça, etnia e gênero, e com grandes dificuldades para assumir o envelhecimento como uma prioridade política, representa o maior desafio ao qual o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDI) é instado a responder.

O CNDI tem como missão fundamental supervisionar, acompanhar, fiscalizar, avaliar e propor diretrizes para a Política Nacional do Idoso e para as políticas de interesse da pessoa idosa. Até junho de 2019 sua composição incluía 28 membros, paritariamente distribuídos entre conselheiros de diferentes pastas ministeriais e da sociedade civil representativa e organizada.

A partir da dissolução arbitrária do CNDI pelo decreto n°9.893 de 27 de junho de 2019, o colegiado passou a ter um presidente exclusivamente escolhido pelo Ministério a que está subordinado, sem maior articulação com outros órgãos do Governo, que dirá com organizações da sociedade civil. Assim, o CNDI restou completamente descaracterizado de sua relevância e de seu papel de diálogo junto aos demais Conselhos.

Diante deste vazio político deixado pelo CNDI, mais do que nunca, cabe à sociedade civil se organizar e agir em defesa dos direitos das pessoas idosas e das pessoas que cuidam delas. À luz das evidências científicas e das recomendações da OMS, a orientação pela Presidência da República do Brasil de restringir as medidas de isolamento apenas às pessoas idosas e mais frágeis deixará estes grupos ainda mais expostos à epidemia do coronavírus, que está longe de atingir seu ápice.

Não basta o Secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa apelar com um “ajude-nos”, essencialmente direcionado apenas aos idosos institucionalizados. Muito embora estes estejam entre os mais vulneráveis, eles representam menos de 1% da população idosa brasileira. Há 30 milhões de idosos no Brasil que vivem na comunidade. Grande parte deles já estava cronicamente desassistida, em situação de pobreza ou miséria, totalmente dependentes de serviços públicos de saúde e sociais que sofreram cortes substanciais em seus orçamentos nos últimos anos.

Muitos dos idosos brasileiros vivem sós, grupo este composto predominantemente por mulheres, que já os coloca em uma situação precária face ao isolamento social, essencial para deter a propagação rápida do coronavírus. Muitos outros são a única fonte regular de renda de toda a família com quem vivem – alguns, dependentes de cuidados, outros provedores deles para outros membros da família. Preservar suas vidas não é apenas um ato humanitário; é também uma forma de preservar uma cultura do cuidado que impacta suas famílias e as comunidades onde vivem.

Assim sendo, o ILC-BR, em seu papel de advocacy, vem alertar as autoridades e a sociedade em geral quanto ao risco indefensável e desumano de assistirmos a um gerontocídio em nosso país.”

O Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-BR) é uma organização independente, criada como uma usina de ideias (think tank), em março de 2012, no Rio de Janeiro. Tem como presidente o médico Alexandre Kalache, epidemiologista especializado no estudo do  Envelhecimento e no processo de envelhecimento da população brasileira. Foi diretor da Organização Mundial de Saúde durante o lançamento do conceito de Envelhecimento Ativo.

 

Thereza Christina Pereira Jorge

Iniciamos com Viva com Beleza Envelhecimento Ativo há 10 anos. E estamos aprendendo a Arte de Envelhecer, e que Arte difícil! O site trata da descoberta do meu Envelhecimento Ativo. Consultoria em Envelhecimento Ativo [email protected] Meu nome é Thereza Christina Pereira Jorge, sou carioca, mãe de dois filhos, jornalista. Estudo há sete anos e Envelhecimento Ativo e escrevo sobre isso. Primeiro no blogue Viva com Beleza e agora no site Arte de Envelhecer. Fui repórter-editora nos jornais O Globo e sucursal Rio de O Estado de São Paulo. Trabalhei nas revistas femininas da Editora Bloch e na revista Isto É, também na sucursal. Sou formada em Ciências Sociais pela UFRJ. O site _ https://www.artedeenvelhecer.com.br _ é muito autobiográfico porque estou descobrindo e praticando o que a OMS definiu como Envelhecimento Ativo. Amo a vida e o viver. Tenho apreciado (às vezes) o meu envelhecer.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo