O Brasil dos idosos que podem se cuidar

O Portal Carta Maior (www.cartamaior.com.br) publica hoje um artigo da jornalista Léa Maria Aarão Reis sobre o e-book “Brasil idoso, uma reportagem em 21 capítulos.” Na apresentação,  Léa Maria afirma que  o livro  aborda a necessidade de praticar o conceito do Envelhecimento Ativo.

O e-book foi lançado na internet, em setembro passado no link gratuito http://bit.ly/brasil_idoso

Até agora foram feitas cerca de 900 cópias.

Léa Maria Aarão Reis é autora de  “Novos velhos _ Viver e envelhecer bem” é um estudo brilhante sobre a revolução cultural que está acontecendo no Brasil com os baby- boomers, a geração que nasceu após a Segunda Guerra. Lançado em 2011,  tem sido uma inspiração para mim, pessoalmente, e para o meu trabalho.

Reproduzo a reportagem a seguir:

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*Atualmente, 30 milhões de indivíduos, mulheres e homens, são idosos no Brasil. Os números são oficiais. Destes, apenas 5% deles podem praticar o chamado Envelhecimento Ativo. Setenta e cinco por cento do total de idosos utilizam o SUS. Nesse grupo, muitos já tiveram plano de saúde privada no passado e não contam mais com esse tipo de assistência por não conseguirem arcar com os seus custos; ou nunca chegaram a contratar um plano.

*Apenas cerca de 1% dos idosos brasileiros estão hospedados nas chamadas ILPIs – Instituições de Longa Permanência -, as casas conhecidas como ”abrigo de idosos.” Os seus custos também são altos para a maioria da população de idosos brasileiros.

*Para quem não sabe, os estados brasileiros com maior número de idosos são o Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Ceará. E a maioria das intituladas ”Cidades Amigas do Idoso”, as que possuem políticas públicas avançadas destinadas a proporcionar mais conforto, proteção e bem-estar à população de mais idade estão no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná. São Paulo recebeu neste início de ano o selo intermediário com esse título. A cidade de Veranópolis, no Rio Grande do Sul, e Camboriú, em Santa Catarina, são as mais conhecidas.

Estes dados sobre a velhice no Brasil atual e outras importantes referências sobre o assunto que já esteve na moda e no foco da mídia, há cerca de dez anos, e hoje parece relegado, estão registrados no trabalho persistente da jornalista Thereza Christina Pereira Jorge, de 73 anos, uma carioca de Copacabana que criou um blog, em seguida o site artedeenvelhecer.com.br em 2009, e é autora do e-book Brasil idoso, uma reportagem em 21 capítulos, lançado com sucesso no ano passado. O eixo principal do livro é a necessidade de instituir e difundir o conceito do Envelhecimento Ativo. 

” O meu trabalho foi iniciado com a divulgação do Envelhecimento Ativo em 2011. Com o livro de agora já enviamos 900 cópias do e-book Brasil Idoso, uma reportagem em 21 capítulos onde é detalhado o conceito de envelhecer ativamente.” Ou seja: continuando a se cuidar (do corpo e da mente) e a produzir. ”Isto é fundamental para a presente geração de extensa longevidade,” ressalta Thereza. 

Através do e-mail [email protected] foram remetidos cerca de 100 livros, e os pedidos por esse canal continuam. “No link http://bit.ly/brasil_idoso 800 livros foram copiados, inclusive nos Estados Unidos, Irlanda, e cinco países europeus.” A principal demanda vem do facebook. Em seguida, e-mails e instagram. 

Os filhos de Thereza produziram o e-book da jornalista que aposentada pelo INSS. Ela conta com o suporte financeiro familiar, o que permite que mantenha a idade madura ativa no sentido de cuidar de si mesma de forma digna. 

Quando Thereza Jorge pensou em produzir uma edição impressa do trabalho não imaginou que ela seria tão extensa e cara. São 252 páginas de texto. ” A editora Clube de Autores estimou um custo de mais de 50 reais fora o que eu teria de arcar com a produção. Desses 50 reais eu não receberia nem 10. Pensei que não valeria a pena até porque não tinha muita idéia da receptividade do público. “ 

’’Ao concluir, no início de 2018, o curso Das Políticas às Ações: direitos da pessoa idosa no Brasil, na Escola Nacional de Administração Pública, fiquei ainda mais estimulada. Aprendi muito sobre o processo de envelhecimento no país, as dimensões desse fenômeno, e o contexto do Brasil Idoso no mundo”.

O conceito do Envelhecimento Ativo foi proposto em discussões de membros da Organização Mundial da Saúde – o Brasil é signatário dessa proposta – na época em que o médico epidemiologista Alexandre Kalache, outro carioca criado em Copacabana, era membro integrante da agência. Ele é um dos estudiosos do envelhecimento demográfico brasileiro, ”que pode virar um tsunami nos próximos 10, 15 anos,” no seu entender. 

Kalache lembra que ”a longevidade sem qualidade de vida é um premio envenenado.” Nós acrescentamos: a velhice passiva, inerte e sem cuidados nem ocupações também é. 

O significado do Envelhecimento Ativo é o do self care. Trata-se de conceito e de uma prática com custo elevado, considerando-se a alimentação dispendiosa, exercícios com profissional especializado, consultas médicas eventuais, medicamentos de uso contínuo para controle da qualidade de vida, despesas com dispositivos digitais que permitam atualização e informação ampla, e o custo de uma vida cultural (cinema, teatro, cursos, compra de livros) que ”enriqueça o espírito,” como diz Thereza Jorge.

Significa também produzir, se ocupar, aproveitar essa fase da vida para estudar, fazer trabalho voluntário, participar ativamente de atividades sociais e se envolver nas mesmas, como seguir cultivando a curiosidade e o interesse pela vida. 

No Brasil, a partir de 2016 a presença de idosos/idosas começou a crescer mais aceleradamente no mercado de trabalho. Em 2018, 47% de aposentadas e aposentados continuavam ativos segundo os dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do Serviço de Proteção ao Crédito. 

Naquele ano, vinte e um por cento permaneciam no mercado de trabalho desenvolvendo trabalho remunerado por necessidade financeira e procurando manter o padrão da vida adulta que por convenção é classificada de ‘produtiva’. Dessa percentagem, 45% de pessoas das classes A e B e 48% das classes C,D e E.

Outro estudioso do envelhecimento no país, o professor Renato Peixoto Veras, que inaugurou há pouco mais de 30 anos a primeira Universidade da Terceira Idade, na UERJ, foi outro que inspirou a jornalista. A Unati oferece dois cursos de pós-graduação em Geriatria e Gerontologia. Num país com a massa de população idosa que tem o Brasil, é espantoso que atualmente ainda haja menos de dois mil médicos geriatras em atividade.

Outra observação de Thereza é pertinente. ” Acho,” diz ela, ”que a ênfase no emponderamento feminino está acarretando uma certa distorção. Noventa por cento dos meus seguidores nas duas fanpages são mulheres; elas são mais de dez mil e continuam a chegar novas seguidoras. Dois por cento são homens. Acho que as mulheres idosas ’emponderadas’, têm a obrigação democrática de cooperar para que mais idosas e idosos possam usufruir da longevidade com qualidade de vida.” 

”Meus filhos são os produtores desse livro; eles acreditam no meu trabalho e patrocinam o site e o e-book E o próximo livro que já está em andamento também será colocado como link disponível na internet. Acho que tenho recebido tanta ajuda que me permite complementar minha aposentadoria recebida pelo INSS que estou dentro dos 5% de idos que têm possibilidade de praticar o meu Envelhecimento Ativo. É assim que me sinto bem transmitindo informações importantes aos idosos e às idosas do país.”

Abaixo, alguns dos verbetes contidos no livro que, tão bem acolhido na versão e-book, prova a grande necessidade de informações do segmento de mais idade. Um espelho para a população cada vez mais longeva.

Ação Terapêutica – Processo de tratamento de um agravo à saúde por intermédio de medidas farmacológicas e não farmacológicas como mudanças no estilo de vida, abandono de hábitos nocivos, psicoterapia, entre outros.

AIH (Autorização de Internação Hospitalar) – Documento de autorização e fatura de serviços hospitalares do SUS, que engloba o conjunto de procedimentos realizados em regime de internação. 

Atividades de vida diária (AVDs) – Termo utilizado para descrever os cuidados essenciais e elementares à manutenção do bem-estar do indivíduo que compreendem aspectos pessoais como banho, vestimenta, higiene e alimentação, e aspectos instrumentais: realização de compras e cuidados com finanças.

Assistência domiciliar – Assistência que engloba a visitação domiciliar e cuidados domiciliares que vão desde o fornecimento de equipamentos até ações terapêuticas mais complexas.

Autoestima– Sentimento de satisfação e contentamento pessoal que experimenta o indivíduo que conhece suas reais qualidades, habilidades e potencialidades positivas e que, portanto, está consciente de seu valor, sente-se seguro com seu modo de ser e confiante em seu desempenho.

Autodeterminação – Capacidade de o indivíduo poder exercer sua autonomia.

Autonomia – Capacidade de autogovernar-se, de dirigir-se por suas próprias leis ou vontade própria; soberania.

Autocuidado – Cuidados pessoais. Traduzido do inglês self care. Na saúde, o autocuidado é qualquer função reguladora humana necessária que esteja sob controle individual, deliberada e auto-iniciada. Alguns colocam o autocuidado em um continuum com os prestadores de serviços de saúde no extremo oposto enquanto outros o vêem em um construto multidimensional complexo.

BPC – Benefício de Prestação Continuada de Assistência, tipo de ajuda mensal equivalente a um salário mínimo que o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) proporciona aos idosos com 65 anos ou mais e pessoas com deficiência e incapacitadas para o trabalho.

Capacidade funcional– Capacidade de o indivíduo manter as habilidades físicas e mentais necessárias para uma vida independente e autônoma; a avaliação do grau de capacidade funcional é feita mediante o uso de instrumentos multi-dimensionais.

Envelhecimento Feminino – As mulheres brasileiras vivem sete anos mais do que os homens. Por isso foi levantada a tese de que o Brasil se caracterizava pelo Envelhecimento Feminino, pois, aparentemente, a longevidade é um fator presente nas mulheres. Para o médico epidemiologista Alfredo Kalache, a feminização do envelhecimento brasileiro não é apenas porque as mulheres vivem mais. A seu ver, a alta taxa de homicídios de homens entre 16 e 24 anos explica melhor o fenômeno. No âmbito mundial, as mulheres vivem 4,5 anos mais do que os homens. Em 2013, para cada 100 mulheres acima dos 60 anos havia 85 homens. Aos 80 anos, a proporção era de 100 mulheres para 61 homens. A expectativa de vida dos homens está alcançando a das mulheres nas regiões mais desenvolvidas, e é provável que se alcance uma proporção mais equilibrada de homens e mulheres na população idosa nas próximas décadas. Nas regiões menos desenvolvidas, onde as condições sociais e econômicas das mulheres são, muitas vezes, menos favoráveis, há uma proporção menor de mulheres do que nas regiões mais desenvolvidas, embora haja grandes variações. Em alguns países da Ásia Ocidental (por exemplo, no Paquistão, Qatar e Emirados Árabes Unidos), há mais homens. A ONU prevê que a atual proporção entre sexos nas regiões menos desenvolvidas se manterá estável. 

Cidades menos amigas do idoso: encontradas em 90% dos municípios brasileiros. No sudeste, cidades como o Rio de Janeiro; no nordeste, as capitais – com exceção do Ceará. As cidades brasileiras, na sua maioria, não oferecem condições de mobilidade favoráveis para o idoso. Daí, as quedas frequentes fora de casa. São causa importante de perda de qualidade de vida, do uso de cadeira de rodas, fraturas graves e até mortes.

Lembramos que o Estatuto do Idoso é desconhecido por menos de 30% dos profissionais da área. Embora seja modelo para diversos países, até hoje ele não se impôs como lei federal – a Lei 10.741 de 01 outubro de 2003, do senador Paulo Paim – na maioria das cidades do país onde não há fiscalização ou punição para crimes cometidos contra idosas e idosos. O mesmo se dá com o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa e dos conselhos municipais que deveriam funcionar regularmente.

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