Expectativa de vida no Brasil cairá dois anos por causa da covid-19

RIO – O ano marcado pela pandemia e o confinamento chega ao fim com a esperança da vacina. Mas os impactos da covid-19 se farão sentir por muito tempo e poderão ser ainda mais profundos do que se imaginava. A expectativa de vida do brasileiro ao nascer deve cair em até dois anos por conta das 190 mil mortes pela doença. Será a primeira queda desse indicador registrada no País desde 1940, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Especialistas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) estimam que a pandemia vai reverter a tendência observada nas últimas décadas. O brasileiro perderá pelo menos um ano de expectativa de vida, podendo chegar a até dois anos. Dependendo da capacidade do governo de vacinar a população no ano que vem, reduzindo drasticamente o número de mortes pela doença, essa queda pode ainda se perpetuar por mais um ano.

Em 1940, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer era muito baixa, de 45,5 anos. Desde então, com a redução da mortalidade infantil e os avanços na medicina, o número vem crescendo consistentemente. Em 1980 chegou a 62,5 e, no ano 2000, a 69,8. Nos últimos vinte anos, os ganhos foram um pouco mais lentos, mas, mesmo assim, nunca se registrou um decréscimo.

De acordo com os últimos números divulgados pelo IBGE, em novembro, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer era de 76,6. E poderia ser ainda mais alta se não fosse a violência urbana, que costuma vitimar homens jovens. Tanto que a expectativa de vida das mulheres era de 80,1 anos, contra 73,1 anos dos homens.

“Historicamente, a cada três anos, nós ganhamos um ano de expectativa de vida ao nascer”, explica o economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social. “Agora, vamos perder em um ano o que levamos seis anos para conseguir. Ou seja, não só vamos deixar de avançar como vamos também retroceder.”

Do ponto de vista demográfico, o impacto é muito grande, sobretudo porque 75% da letalidade da doença se concentra entre os idosos. Em geral, as mortes de crianças e jovens têm um impacto muito maior na expectativa de vida média da população do que entre os mais velhos.

“Mas o número de mortos foi tão grande, foi uma quantidade tão desproporcional, que acabou tendo todo esse impacto na expectativa de vida”, avalia Neri. “Este número, 190 mil, equivale a quatro vezes as taxas anuais de homicídios no Brasil; por isso tem esse efeito demográfico gigantesco.”

‘Geração covid’

Outro retrocesso importante que deve se perpetuar segundo os especialistas diz respeito à educação. A desigualdade educacional que vinha caindo há pelo menos 40 anos voltou a subir durante a pandemia, por conta das dificuldades que muitos alunos tiveram, sobretudo os mais pobres, para estudar.

“Entre os jovens de 6 a 15 anos, a média de estudo durante a pandemia foi de duas horas e dezoito minutos, muito abaixo das quatro horas mínimas exigidas pela LBDE (Lei de Diretrizes Básicas da Educação)”, afirma Neri.

“E a redução foi muito maior entre os alunos de escolas públicas, de renda mais baixa e das áreas mais remotas; no Pará, por exemplo 42% dos alunos não receberam material, não fizeram estudo remoto por falta de material. Isso reverte totalmente a tendência de redução de desigualdade educacional que vinha caindo há 40 anos.”

O acesso a internet é outro problema. Estimativas de 2018 do IPEA apontam que cerca de 16% dos alunos do ensino fundamental (4,35 milhões) e 10% dos alunos do ensino médio (780 mil) não têm acesso à internet. E praticamente todos eles eram da rede pública.

“Muitas dessas perdas são irreversíveis e podem gerar um efeito permanente”, analisa Neri. “Teremos uma geração covid.”

Sem trabalho

Embora a renda per capita tenha se mantido elevada por conta do pagamento do auxílio emergencial, o nível de ocupação da população nunca foi tão baixo. A taxa era de 49,7% em maio, passou para 49,3% em outubro e chegou a 49,6% em novembro. Ou seja, metade das pessoas em idade de trabalhar está fora do mercado de trabalho.

“Desde que começamos a medir essa taxa nunca tínhamos observado uma ocupação abaixo de 50%”, afirmou a coordenadora da pesquisa PNAD-Covid, do IBGE, Maria Lúcia Vieira. “Neste sentido, foi um ano muito atípico e complicado para o mercado de trabalho porque houve rendimento efetivo, mas tivemos esse comportamento do nível de ocupação.”

O fim do auxílio emergencial em 31 de dezembro preocupa os especialistas, pois deve marcar a volta de um grande número de pessoas para a situação de extrema pobreza. “Neste aspecto 2021 me preocupa muito mais do que 2020”, afirmou Marcelo Neri.

Para Maria Lucia Vieira, tudo vai depender dos desdobramentos da pandemia e das respostas oferecidas pelo governo no ano que vem.

“Não tem como prever muito porque não sabemos o que vai acontecer em termos de pandemia, se a situação vai se agravar ou se vamos ter uma vacinação para minimizar os problemas”, diz Maria Lúcia. “O comportamento do mercado de trabalho vai se dar muito em função das questões pandêmicas; se tudo estiver terminando e se revertendo poderíamos entender que estamos voltando para um comportamento já conhecido, com a ocupação aumentando até o final do ano. Mas não temos como prever a situação da pandemia, muitos lugares já estão ensaiando um fechamento novamente, São Paulo voltou a adotar horários de expediente limitado.”

O Estado de S.Paulo

17 anos do Estatuto do Idoso

Ver uma pessoa com mais de 60 anos ter prioridade na fila do supermercado, de bancos, no ônibus ou em outros locais se tornou mais comum no país. Por vezes ainda desrespeitado, o direito dos idosos em diferentes serviços ficou amplamente conhecido depois do Estatuto do Idoso, que completou 15 anos de vigência na segunda-feira (1).

Criado pela Lei 10.741, em 1º de outubro de 2003, quando o Brasil tinha 15 milhões de idosos, o estatuto trouxe, de forma inédita, princípios da proteção integral e da prioridade absoluta às pessoas com mais de 60 anos e regulou direitos específicos.

—  Foi a primeira legislação que de fato passa a regular os direitos humanos das pessoas idosas. Eu trabalho na área de envelhecimento há quase 40 anos e, na época, nós éramos um dos países que não tínhamos uma legislação que permitisse penas e sanções administrativas para aqueles que praticassem maus-tratos e violência  —  relata Laura Machado, representante da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria na Organização das Nações Unidas (ONU) e membro do conselho do HelpAge Internacional.

A partir do estatuto, pela primeira vez, negligência, discriminação, violência de diferentes tipos, inclusive a financeira, e atos de crueldade e opressão contra o idoso foram criminalizados e hoje são passíveis de punição. O estatuto também aumentou o conhecimento e a percepção dos idosos sobre seus direitos.

—  O idoso hoje sabe que não pode ser uma voz passiva, que tem direitos assegurados, isso está muito mais disseminado pela população como um todo. E não é só em relação a ter preferência na fila ou ter uma vaga para encostar o carro. Isso melhorou, mas acho que as pessoas se sentem mais empoderadas e cientes dos seus direitos  — diz Alexandre Kalache, epidemiologista especializado em envelhecimento.

Kalache, que também é presidente do Centro Internacional de Longevidade, acrescenta que, apesar de não estar totalmente implementado, o estatuto impede o retrocesso de direitos já garantidos pela Constituição ou outras políticas transversais de proteção aos idosos.

—  Por termos um estatuto do idoso, nós tivemos recentemente a reversão da decisão da Agência Nacional de Saúde Suplementar, que voltou atrás daqueles 40% de coparticipação nos planos de saúde, porque houve muitas críticas da sociedade civil, conselhos e outras entidades que disseram isso não pode ser feito sem uma escuta, um diálogo — comenta Kalache.

Para a Pastoral da Pessoa Idosa, que desde a década de 1990 atende idosos em condições de vulnerabilidade, o estatuto qualificou a assistência social e mudou a percepção de outras gerações sobre o idoso.

— O fato de ter uma legislação que assegura direitos dá maior credibilidade, visibilidade e segurança a todo um trabalho, seja da pastoral, seja de outras instituições que se dedicam à causa — afirmou Irmã Terezinha Tortelli, coordenadora da pastoral.

O secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, Rogério Ulson, lembra que a implementação do estatuto, fruto de mobilização da sociedade, representou uma mudança de paradigma, “já que amplia o sistema protetivo desta camada da sociedade, caracterizando verdadeira ações afirmativas em prol da efetivação dos direitos da pessoa idosa”. O secretário, no entanto, reitera que a luta envolve enfrentar desafios culturais, “como de que envelheceu e acabou: você ganha um pijama, um chinelo e uma poltrona”.

Aprimoramento da legislação

Em âmbito internacional, integrantes de organizações brasileiras estão articulando junto à Organização das Nações Unidas (ONU) para a aprovação de uma Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa Idosa.

As organizações também esperam que o Congresso Nacional aprove a Convenção Interamericana dos Direitos das Pessoas Idosas, instrumento que foi aprovado por países da América Latina, em 2015, na Organização dos Estados Americanos (OEA).

Na Câmara dos Deputados, 147 projetos de lei que mudam ou aprimoram alguns pontos do Estatuto do Idoso estão sob análise. A maioria trata de mobilidade, acesso à moradia, saúde, direitos humanos e questões relacionadas a trabalho, emprego e assistência social.

Apesar do Estatuto do Idoso ser considerado um modelo para outros países, especialistas ponderam que, depois de 15 anos, a legislação ainda não está totalmente implementada e o cumprimento de vários artigos é completamente ignorado em muitas partes do Brasil. Preconceito e falta de conscientização estão entre as principais barreiras para efetivação das políticas.

— O estatuto é ignorado muitas vezes pelas próprias autoridades que deveriam monitorar e implementar. O acesso a serviços ainda é lamentável e em algumas áreas há retrocessos. Há discriminações flagrantes pela pessoa ser uma idosa. Nós temos muito caminho a percorrer para que esse estatuto possa realmente ser uma conquista e não apenas um belo documento acumulando poeira na prateleira — diz Alexandre Kalache.

“Envelhecimento tem cara feminina”

O país tem hoje 30 milhões de ido sos, número que pode dobrar até 2060, segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar de o brasileiro viver cada vez mais, os especialistas alertam que a sociedade ainda trata com indiferença o envelhecimento, o que impossibilita ou dificulta a preparação para esta fase da vida.

—  As pessoas acham, sobretudo os homens, que são máquinas indestrutíveis e não pensam, tanto em relação ao capital financeiro, como o capital de saúde, que quanto mais cedo você acumular, melhor. E nós temos essa mentalidade de que envelhecimento não tem nada a ver comigo —  alerta Kalache.

Para idosos de baixa renda, a garantia dos direitos é ainda mais difícil. Se a pessoa idosa for mulher, negra, por exemplo, a exclusão é maior ao passar dos 60 anos de idade. Segundo o IBGE, as mulheres representam 56% dos idosos, e os negros, 55%.

—  O envelhecimento tem uma cara feminina, porque quanto mais idosa a população, mais mulher você encontra. Você tem aí uma discriminação dupla: de gênero e do envelhecimento. Outra discriminação dupla é você ser negro e envelhecer. É uma vida de exclusões, de violações que o envelhecimento agrava —  destaca Kalache.

Outro grupo vulnerável é a população LGBT.

—  São pessoas que vieram de outras gerações, de uma realidade em que não podiam nem sair do armário e agora tem um capital social reduzido. E o Estatuto do Idoso não contempla essas minorias —  completa.

O preconceito em relação aos idosos se deve, de acordo com os profissionais da área, é a falta de informação e educação voltada para o processo de envelhecimento.

—  Há um pouco de olhar equivocado sobre o envelhecimento de uma maneira geral. A expressão “melhor idade” mascara uma realidade, talvez inconscientemente, querendo enaltecer o lado positivo. Só que não dá pra ignorar que uma grande parcela da população idosa não tem benesses, não consegue usufruir de momentos melhores — afirma Terezinha, da Pastoral da Pessoa Idosa.

Agência Brasil

Gerontocídio: a tragégia anunciada no Brasil está longe do fim

Em agosto deste ano, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) informou que 75% das mortes da pandemia eram de idosos. Atualmente, hoje, sexta-feira, 18 de dezembro, os números dizem que há 186 mil vítimas fatais. Usando o calculo da SBGG, desses cerca de 140 mil foram idosos.

Esse número é cerca de 5% maior do que a pior das previsões. Em marco, o Ministério da Saúde distribuiu um comunicado alertando para cerca de 12 mil mortes no grupo de risco. Uma reportagem num jornal de Minas previu cerca de 33 mil.

O epidemiologista carioca Alexandre Kalache, presidente do International Longevity Center-Brazil , escreveu uma carta-aberta ao Conselho Nacional dos Direitos do Idoso, culpando-o pela omissào diante do que ele chamou de gerontocídio.

Em abril, em entrevista ao programa Sem Censura Especial (TV Brasil)  , o especialista em envelhecimento Alexandre Kalache afirmou que “a voz do idoso não está sendo ouvida sobre a sua vulnerabilidade enquanto grupo de alto risco ao Covid-19. Para ele, a falta de legitimidade do atual Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa (CNDI)  do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, explica ausência do protagonismo dos idosos brasileiros. E o risco de um gerontocídio desse grupo. (Gerontocídio é Senicídio ou geronticídio, é o abandono à morte, suicídio ou assassinato de idosos.). ” 
A tragédia está em curso. Recentemente, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, constatou que há 200 mil idosos em ILPIs, instituicões de Longa Permanência. Essas instituicões estão oficialmente reconhecidas nos órgãos oficiais. A descoberta foi consequencia do levantamente feito para a distribuicão do auxílio emergencial do Governo às ILPIs.
Ocorre que em Portugal, Primeiro Mundo, a pandemia revelou que as famílias estavam apelando para cerca de 3 mil asilos “piratas”, o que está preocupando às agências portuguesas.
Considerando que há um consenso entre os cientistas que os números brasileiros estão  subnotificados e a prevencão não foi realizada. (testes comecam a ser feitos em algumas cidades agora), a realidade deve ser dramaticamente pior.

Por uma informação  da diretora-geral  da Frente Nacional de Fortalecimento às Instituições de Longa Permanência para Idosos, a geriatra mineira Karla Giacomin, podemos chegar a conclusões alarmantes. Ela com 500 voluntários estão se organizando para lutar por uma Política Nacional de Cuidados Continuados.  “Qualquer pessoa, em qualquer idade, não apenas idosos, pode precisar de atendimento multidisciplinar que é complexo”, afirma Karla Giacomin,  que presidiu o Conselho Nacional dos Direitos do Idoso (CNDI),

No último Censo, em 2010, Belo Horizonte contava com 28 instituições segundo o radar do Conselho Nacional de Assistência Social. que abrigavam 800 idosos. Com a pandemia, fez-se nova pesquisa e  descobriu-se  que só na capital estão em operação 208 lares, a maioria particulares (beneficentes ou não).

O problema dos idosos brasileiros não nasceu durante a quarentena. Apesar do Estatuto do Idoso ter 17 anos e  ser considerado uma legislacão abrangente e moderna, as políticas públicas não tornarm a lei eficaz.  Infelizmente.

 

Thereza Christina Pereira Jorge

 

 

Câmara cria comissão para acompanhar a Década do Envelhecimento Saudável

Por indicação da deputada Leandre (PV-PR), a Câmara dos Deputados vai criar uma comissão externa para acompanhar e debater políticas públicas voltadas ao envelhecimento saudável, alinhada às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), durante a Década do Envelhecimento Saudável (2020 – 2030).

A criação da comissão foi garantida em um ato do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, no dia 27 de novembro. O ato da presidência enfatiza que a comissão externa não terá nenhum ônus para a Casa. Ao menos, 14 deputados já fazem partem da nova comissão.

De acordo com a proponente, a década do Envelhecimento Saudável 2020-2030 é a principal estratégia para alcançar esse objetivo, com base na Estratégia Global da OMS sobre Envelhecimento e Saúde, no Plano de Ação Internacional das Nações Unidas para o Envelhecimento e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda das Nações Unidas 2030.

Nesta semana, Leandre participou de uma reunião virtual com o secretário Nacional da Pessoa Idosa, Antônio Costa, representantes da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), e deputadas federais para debater a criação da comissão externa da década do envelhecimento.

“O Brasil envelhece muito rapidamente. Costuma dizer que, em breve, no Brasil, nós teremos mais avós e avôs do que netinhos. Então, precisamos pensar e desenvolver políticas públicas para preparar o nosso País para receber a população brasileira, que envelhece rápido. E conscientizar os brasileiros para um envelhecimento saudável. Por isso, a OMS criou a Década do Envelhecimento. E esta comissão terá a função de caminhar de mãos dadas com a organização internacional”, afirmou Leandre Dal Ponte.

Comunicacão da Câmara dos Deputados

Uma comunidade pra chamar de sua _ cohousing sênior

 

Gente: achei esta excelente reportagem no jornal UAI Online, de Belo Horizonte, e estou republicando-a compacta. Aquela ideia de república de estudantes adaptada para nós, idosas e idosos. Muito bacana. A foto é apenas para ilustração . (TCJ)

Imagine um lar amigável para quem já chegou ou caminha para idade madura, em que o indivíduo é convidado diariamente a conviver com a comunidade, dividir tarefas, compartilhar a mesa e atividades lúdicas e prazerosas. Em que vizinhos se conhecem e se frequentam. Dividem muito e individualizam pouco. Em que o objetivo é favorecer a autonomia e o bem-estar. 

Essa é a proposta do conceito cohousing sênior, que nada tem a ver com casas de repouso para a terceira idade ou hotéis especializados em receber esse público. O projeto consiste em um grupo que opta por abrir mão dos modelos de residência tradicionais para unir moradia individual a um espaço comunitário. Há, nesse ideal, pequenas habitações de uso particular (dormitório, minicozinha e banheiro) e uma área de uso comum com espaços de lazer, refeitório, salas de TV e lavanderias coletivas, por exemplo. Tudo em um mesmo terreno (uma gleba de terra) ou condomínio projetado para estimular o convívio, a sustentabilidade e a solidariedade. 

Já sucesso de público e crítica na Dinamarca, EUA e Espanha, o conceito, que não é restrito à comunidade sênior – o filósofo grego Epicuro falava dele e difundiu seus propósitos três séculos antes de Cristo –, vem, aos poucos, chegando ao Brasil. 

Por aqui, o modelo de iniciativa privada mais adiantado é o realizado por grupo de professores aposentados da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que, desde 2013, trabalham na implementação da Vila ConViver. Diretrizes jurídicas e códigos de ética já foram desenvolvidos e aprovados pelo conjunto, que conta com 54 pessoas. Até 2021, participantes, como o professor aposentado Bento Carvalho Júnior, esperam estar morando no cohousing. Já em João Pessoa e em mais cinco municípios da Paraíba, o governo estadual implantou o Cidade Madura, projeto de habitações populares (Minha casa, minha vida) adaptadas e com serviços voltados exclusivamente para a comunidade idosa local. 

Em Minas, projetos cohousing também vêm extrapolando o plano das ideias. Em BH, exemplo é o Conexão Gaia. O grupo aberto, que atualmente conta com oito mulheres, é interessado em ampliar a convivência entre si e planeja ideais para a implantação da moradia, que celebrará a coletividade e resgatará preceitos das antigas comunidades, como um contato mais próximo e genuíno com a terra. A mãe natureza também é berço para a implantação do Aldeia da Sabedoria, projeto idealizado pela terapeuta Gislaine D’Assumpção, que prevê a construção de residências num espaço localizado em Ravena, distrito de Sabará, na Região Metropolitana de BH. 

Segundo especialistas, o modelo cohousing sênior é um reflexo do que vem ocorrendo em todo o planeta: aumento da expectativa de vida da população e, com isso, o surgimento de uma comunidade madura cada vez maior, autônoma, ativa e carente de soluções para anseios e demandas. 

HÁBITOS E IDEAIS 

Especialistas apontam que viver em um cohousing favorece a qualidade de vida dos idosos. Porém, exige novo comportamento, focado no desapego e em processos de cooperação 

“É missão da Vila ConViver ser uma comunidade sênior solidária, que favoreça o envelhecimento saudável de todos os seus moradores por meio do apoio mútuo, da cooperação, do incentivo à autonomia, do respeito à individualidade de cada associado e da interação com a sociedade em geral”, detalha Bento da Costa Carvalho Júnior, de 72 anos. Engenheiro de alimentos, professor doutor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele integra a Associação dos Moradores da Cohousing Sênior Vila ConViver e atua na vice-presidência da entidade. 

Idealizado por grupo de docentes da Unicamp, a partir das pesquisas de um Grupo de Trabalho (GT) que investigou a temática moradia para idosos, o projeto Vila ConViver está com desempenho avançado. A previsão dos 54 integrantes é que a mudança para o espaço seja realizada a partir de 2021. Ao descrever o hábitat idealizado para viver a última etapa da existência, o professor aposentado é só entusiasmo. “Estudamos várias opções de residência para idosos com problemas – limitação/restrições – de autonomia e independência existentes no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Esse trabalho nos levou à descoberta de um tipo de comunidade residencial intencional criado na Dinamarca, na década de 1990, em que os moradores iam menos aos médicos, tomavam menos remédios e viviam mais que o restante da população. O grande diferencial desse tipo de comunidade residencial era a parte social, por meio da criação intencional do espírito de comunidade, de apoio mútuo e cooperação entre os seus moradores”, explica. 

No projeto da Vila, os arquitetos preveem que a casa comum chegue a ter até 600 metros quadrados (m²) de área construída (com suítes para hospedar familiares dos moradores) e as residências individuais, de 80m² a 100m². “Outras dependências comuns podem incluir pista de caminhada, núcleos distribuídos com mesa e bancos, horta etc. O estacionamento de veículos é comum, logo na entrada do terreno. A arquitetura física de uma cohousing privilegia a interação social”, reforça o professor. 

MOTIVAÇÃO 

Ana Beatriz e Cícera Maia se uniram para divulgar o Conexão Gaia, local em que pretendem viver já a partir de 2022 (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

A ideia é tentadora até para quem ainda é jovem, caso de Ana Beatriz de Oliveira, relações-públicas, de 49. A princípio, ela chegou aos grupos Cohousing BH e Conexão Gaia, ambos idealizados por Cícera Vanessa Maia, de 58, funcionária pública federal aposentada, pensando em poupar a única filha da preocupação com cuidados que demandaria na velhice. Mas logo se apaixonou pelo projeto e pelas ideias propostas no novo modelo. “Pela minha própria experiência de vida, percebo que as pessoas, mesmo familiares, não têm a ideia de repartir, compartilhar. E foi justamente tal premissa que me fisgou logo que conheci o modelo”, conta. 

Hoje, ela e Cícera se tornaram amigas e vêm espalhando por aí a ideia do cohousing em que pretendem estar morando já a partir de 2022. “Nosso grupo ainda está em formação. Nessa caminhada de um ano, estabelecemos cuidar das relações e da convivência em um primeiro momento. Isso porque nosso grupo é aberto e eclético. Nosso foco, então, é conhecer essas pessoas, construir uma identificação, criar laços de convivência. Quando sentirmos que esse primeiro passo está consolidado, partiremos para o combinado.” Ou seja, os trâmites práticos, burocráticos e legais para a realização do cohousing. 

Cícera informa que o propósito de residir em uma cohousing é mais amplo e imbuído de conceitos e paradigmas, como solidariedade e sustentabilidade. Além, é claro, da cultura do compartilhar. “Já no contato inicial, procuramos desconstruir a ideia do ‘quanto custa’ viver numa cohousing. Digo que é preciso, antes, saber se quero morar tão próximo a outras pessoas, aderir à coletividade. Sim, claro que existe um investimento financeiro e, geralmente, quem vive em um cohousing até se dispõe do imóvel tradicional para aderir ao projeto, mas não deve ser esse o tópico principal em uma primeira análise. Antes, há de se pensar nas relações.” 

MUDANÇAS EM CURSO 

Em coro, Cícera e Beatriz lembram que há uma nova configuração familiar e social em curso, inclusive dos pontos de vista antropológico e gerontológico. “Hoje, uma pessoa com 70 anos ainda é broto, por mais que a saúde não seja a mesma dos 30”, destacam. Cícera reforça: “Há, em cena, a necessidade de adaptação, uma mudança de cultura. Então, estamos pensando em novos espaços, em que haja atenção às demandas, à segurança e à qualidade de vida dos idosos”. E lembram que o processo exige mudanças, inclusive de paradigma, de comportamento. “A ideia de compartilhar ainda causa impacto muito forte aqui. Isso porque, no Brasil, ficamos amarrados à ideia de condomínio. Esquecemos de hábitos, como cumprimentar o vizinho, compartilhar um bolo. E nem todo mundo já despertou ou está disposto a praticar o desapego, a fugir do individualismo. É um desafio.” 

CONHEÇA O MODELO COHOUSING no MUNDO: 

– Saettedammen: 1ª cohousing multigeracional, implantada em 1972, em Ny Hammersholt, na Dinamarca. (http://www.xn—sttedammen-d6a.dk/) 

– Trabensol Cooperativa: cohousing sênior localizada em Torremocha de Jarama, na Espanha, inaugurada em 2013. (http://trabensol.org/) 

– Pioneer Valley Cohousing: comunidade multigeracional que opera utilizando a sociocracia. Essa cohousing foi implantada em 1994, em Amherst-MA, Estados Unidos (https://www.cohousing.com/welcome) 

– Oakcreek Community: cohousing sênior, concluída em 2013, implantada em Sillwater-OK, Estados Unidos. (https://www.oakcreekstillwater.com/) 

PROJETOS NO BRASIL: 

– CohousingBrasil Co-Lares: https://www.facebook.com/ cohousingBrasil/ti?=as 

– A arquiteta Lilian Lubochinski é entusiastas da ideia: https//www.facebook.com/ lilian.lubochinski 

– Cohousing Minas Gerais: https://www.facebook.com/groups/cohousingminasgerais/ref?=share 

– Conexão Gaia: https://www.facebook.com/ cohousingbhconexaogaia/ 

– O arquiteto Edgar Werblowsky articula o movimento cohousing no Brasil: https://facebook.com/profile. phpid?=595587006 

 

Obs: este conteúdo é uma repost de 2019.  É uma das reportgens mais vistas

 

Operação Vetus: 10.802 denúncias, 11.755 atendimentos e prisão de 449. Em 2 meses

Para combater a violência contra o idoso foi deflagrada, nesta sexta-feira (4), em todo o país, a Operação Vetus, sob a coordenação do Ministério da Justiça e Segurança Pública. A apuração e investigação de denúncias foram iniciadas no dia 1° de outubro, Dia Internacional do Idoso. Dessa data até a manhã desta sexta-feira, foram apuradas 10.802 denúncias, com o atendimento de 11.755 vítimas e a prisão de 449 agressores, em 1.410 municípios. Estão sendo cumpridas 765 medidas protetivas e instaurados 3.088 inquéritos.

As polícias civis dos 26 estados e do Distrito Federal apuram denúncias e cumprem mandados e medidas protetivas na ação que foi motivada pelo aumento do número de casos registrados durante o período da crise do novo coronavírus pelo Disque 100 do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Com a Operação Vetus, o Poder Público dá uma resposta nacional e esse tipo de violação de direitos humanos, de acordo com o ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça. “Esse é um crime de alta gravidade, que traz um alto impacto na vida do ser humano no sentido de tirar dele a dignidade no momento em que ele está mais fragilizado, em que suas forças já não correspondem a da juventude, a mente muitas vezes está abalada por doenças.”

 

 

Apenas nesta quarta, em que foi deflagrada a Operação Vetus, até o fim da manhã haviam sido apuradas 166 denúncias, cumpridos 13 mandados, 13 medidas protetivas, feitas 335 visitas e diligências e instaurados 16 inquéritos.

Com as medidas de isolamento social provocadas pela Covid-19, o agressores e vítimas acabam passando mais tempo no mesmo espaço. De acordo com os dados do Disque 100, apresentados pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, de janeiro a setembro de 2019 foram registradas 36.181 denúncias de violações relacionadas à pessoa idosa. No mesmo período de 2020, foram 62.109 denúncias.

Segundo a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, a operação integrada é um marco e mudará a política pública de proteção aos idosos no Brasil. “A todos os idosos do Brasil que estão vivendo um ciclo de violência e que achavam que estavam sozinhos, vocês não estão sozinhos. Olhem o que estamos fazendo. Nos procurem, denunciem, temos um WhatsApp, temos o Disque 100. Estamos nos levantando nesta nação na proteção dos idosos como jamais foi visto no Brasil.”

A violência contra o idoso é crime que pode ter pena de dois meses a um ano de reclusão, além de multa.

Canais para denunciar

As denúncias feitas por meio do Disque 100 e do Ligue 180 são gratuitas e podem ser anônimas. Qualquer pessoa pode acionar o serviço que funciona diariamente, 24h, incluindo sábados, domingos e feriados. O serviço cadastra e encaminha os casos aos órgãos competentes.

Entre os grupos atendidos pelo Disque 100, estão crianças e adolescentes, pessoas idosas, pessoas com deficiência. Já as denúncias de violência contra a mulher são registradas pelo Ligue 180.

www. gov.br

A eleição de uma Dama, Luisa Erundina, 86 anos

Erundina: Os sonhos não envelhecem
A pandemia dá voz aos idosos com denúncias de falta de infra-estrutura das Instituições de Longa Permanência, mas a energia e convicção política de Luiza Erundina estimulam ações e a sobrevivência de idosas e idosos brasileiros

Notícias sobre os idosos – segmento da população que parece ser inexistente por parte da mídia corporativa – em plena covid-19 no mundo, e no Brasil, nas últimas semanas, em época de eleições. A recente informação oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciando dados de longevidade é modestamente positiva: aumentou 0,3% em relação a 2018 a taxa de estimativa de vida no Brasil. Do patamar dos 76,3 anos a longevidade, para os dois sexos, passou a 76,6 anos. O Brasil hoje conta com 30 milhões de idosos e com centenas de blogs, sites e portais destinados a informações e noticiário para esse segmento da população desatendido pelo governo.

Um desses sites, Arte de Envelhecer, registrou 21 mil acessos nas suas fanpages em setembro último; e eles continuam crescendo. Sua diagramação foi adaptada para celulares, dispositivo em geral mais usado por idosos, e onde as notícias são breves, concisas, dinâmicas e há muitos tags e vídeos.

”A pandemia está trazendo pautas e leitores”, diz a criadora e editora da página, jornalista Thereza Jorge Pereira, moradora do bairro de Copacabana, no Rio de janeiro e que o produz há nove anos. O conteúdo conta com diversas edições e com enfoques exclusivos no Instagram, Twitter e Facebook.

”Os perfis dos idosos são diferenciados”, diz Thereza. ”Viva com Beleza, fanpage do FB, é para os neo-idosos. O Arte de Envelhecer, para idosos assumidos. O Instagram divulga o Envelhecimento Ativo e o Twitter é utilizado para as manchetes”.

Outras notícias vêm de fora, da Espanha, que assim como os governos de vários outros países se (pré)ocupa com a saúde e o bem-estar de suas populações (ao contrário infelizmente do que ocorre Brasil). Um plano federal de vacinação ordenada acaba de ser anunciado com detalhes. Segundo o projeto a ser posto em prática daqui a pouco, as pessoas que vivem ou trabalham em lares de idosos, grupo duramente afetado pela covid-19, serão as primeiras a receber as vacinas que estarão disponíveis.

Ontem, na França, outro comunicado oficial: foram divulgados os primeiros estudos do esquema da vacinação em massa dos franceses. E os idosos, nos abrigos públicos e particulares receberão a vacina na frente. No Brasil, triste país, a omissão, a irresponsabilidade e o descaso do governo federal em relação aos mais velhos são gritantes.

No ambiente político brasileiro, que apesar das restrições do isolamento social se animou por conta das campanhas eleitorais no formato de redes sociais, foi grande o movimento de internautas idosos. O número de eleitores a partir dos 60 anos saltou dos 9,5 milhões, de 1992, para 30,2 milhões este ano. Dados do Tribunal Superior Eleitoral. Mas a abstenção é inédita, o que sugere um número imenso de mulheres e homens a partir dos 70 anos que não foram às urnas. Há dois anos, sem pandemia, um em cada quatro eleitores dessa faixa de idade já se abstivera de votar.

Mas há poucos dias, um vídeo da candidata a vice-prefeita de São Paulo, a deputada Luiza Erundina, que completa 86 anos hoje, dia 30 de novembro, viralizou e repercutiu fortemente Sua fala incisiva respondeu com firmeza às insinuações irônicas de que poderia – ou deveria – já ter se aposentado.

”Que se danem”! declarou bem alto Erundina. ”Estou vivendo meu tempo, minha saúde e inteligência, minha experiência. Estou fazendo mal para alguém? Não estou. E quero que mulheres com a minha idade também se sintam assim, que sejam contagiadas pela minha vivência e vontade de seguir trabalhando. E para aqueles que se sentem incomodados, desejo que tenham a sorte de chegar onde cheguei com a energia e convicção que tenho”.

” Sabe? Se você perde seu projeto de vida, tudo perde o sentido”, prosseguiu. ” E meu projeto de vida não termina no meu tempo. Meu projeto é sonhar com outro futuro”.

Sobre a reação de Erundina o professor de arte da Unicamp Jorge Coli, 73 anos, autor de O Corpo da Liberdade, escreveu: ” O papel de Erundina nesta campanha é extraordinário. Ela atropelou todos os preconceitos. Sua alegria vigorosa, sua energia, sua inteligência brilhante estimulam tanto o velho desencantado quanto o jovem blasé”.

Já o projeto da jornalista Thereza Jorge Pereira, ao construir o seu site, ocorreu por uma necessidade dela de se informar e entender o seu próprio envelhecimento que via com ”muito preconceito”. ”O site possibilita uma elaboração do envelhecimento meu e das pessoas. É terapêutico”. E continua:

” Uma coisa que tenho percebido é que não existe um tipo de idoso. São inúmeras tribos. Alguns resistem mais ao processo de envelhecer. Outros já assumiram a idade com todos os colaterais. Não lutam por modificá-los. ‘Me deixe envelhecer em paz’, dizem. E há os conscientes. Esses sabem que a proposta do conceito de Envelhecimento Ativo da Organização Mundial da Saúde é séria e deve ser praticada para uma longevidade saudável”.

Thereza acredita que, ”sem dúvida, a pandemia deu foco e voz aos idosos brasileiros mesmo que através de denúncias sobre violência e falta de infra-estrutura das ILPIs, as Instituições de Longa Permanência, os antigos asilos”. Ou ”morredouros” como alguém lembrou.

A jornalista ressalta que 75% dos brasileiros mais velhos, moradores de Copacabana (região com uma das maiores densidades demográficas de idosos no mundo) usam o SUS e os postos de saúde.” Considerando o conjunto dos mais de 5 mil municípios onde há serviço público gratuito e universal, Copacabana é um oásis, ”mesmo que esteja em decadência”, lembra Pereira Jorge.

A mídia internacional, mês passado, noticiou o que se passa com as mulheres idosas alemãs. Os atos públicos regulares, de protesto, começam a chamar a atenção. Dezenas de avós ativistas se reúnem na Alexanderplatz, em Berlim, denunciando o avanço da extrema direita no mundo, associado, segundo elas, à crise do capitalismo que gera desigualdades extremas e alimenta problemas sociais. Atualmente há mais de 50 avós registradas no grupo. E além de crescer na capital alemã, essa iniciativa de Avós Contra a Extrema Direita já se encontra presente em mais de 70 cidades do país.

Segundo essas mulheres, os governos não estão enfrentando questões socioeconômicas e ecológicas de forma adequada. E as avós declaram que percebem semelhanças entre o momento atual e a Alemanha de 1933, de Hitler, quando a grande maioria delas eram crianças ou adolescentes. Elas lembram que se trata de um mesmo modelo utilizado pela extrema direita em vários países. ”Sermos ativas ajuda a fazer oposição a esse estado de coisas preocupante e é uma válvula de escape para os medos que enfrentamos”, diz uma das líderes do movimento, de 68 anos.

No Brasil, as avós de famílias pobres das periferias das grandes cidades são ativas, mas de outro modo. Foi identificado por exemplo em uma recente pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) que crianças que moram com as avós, nas favelas, frequentam as escolas com maior assiduidade. E que dois terços dos municípios brasileiros têm como sua maior fonte de renda as aposentadorias dos avós de cada família. No programa Work Life, da BBC Brasil, a jornalista Mari Shibata comentou com toda propriedade: os jovens podem estar preparados para herdar o futuro, mas é o envelhecimento da população que está definindo o nosso tempo de agora.

Pela primeira vez na história da humanidade, em 2018 o percentual de pessoas com 65 anos ou mais ultrapassou aquele de crianças com menos de cinco anos no mundo. E a previsão é que o número de indivíduos com 80 anos ou mais triplique. De 143 milhões em 2019 para 426 milhões em 2050.

Portanto, a atuação emocionante de uma Luiza Erundina levando seus projetos debaixo do braço reforça e confirma toda essa movimentação – apesar dos pesares. ” O meu sonho, de uma sociedade socialista, fraterna e igualitária, infelizmente não vai acontecer no meu tempo; tenho consciência disso. Mas se eu não fizer minha parte agora, esse modelo de sociedade não vai acontecer nunca. A velhice não é doença, não é defeito, a velhice não impede o sonho. Portanto, o sonho que me move, em relação às transformações que a sociedade precisa, não envelheceu. Luto por uma sociedade socialista, fraterna e igualitária. Esse sonho não vai envelhecer nunca”, ela avisa.

Fustigados duramente pela pandemia e sua vulnerabilidade diante dela, pela constatação de que a sua própria velhice será, daqui para a frente, objeto de preocupação sanitária urgente e permanente, e pela criminosa desatenção do governo federal e em particular do Ministério da Saúde, os idosos brasileiros com mais de 60 anos representam 74% das mais de 100 mil mortes pela covid-19 desde março último neste país.

A doença e a morte os atingem perigosa e diretamente. ” Os idosos e as idosas são os primeiros a perderem o emprego por pertencerem ao maior grupo de risco de contrair a covid; e abandonam o trabalho com medo da doença ou são demitidos por preconceito do empregador”, anota Ana Amélia Camarano, pesquisadora do IPEA.

Léa Maria Aarão Reis/ Carta Maior

Universidade de Coimbra transmite doutorado online sobre Envelhecimento Ativo, amanhã

A escola europeia de doutoramento em envelhecimento “EIT Health Ageing PhD School”, coordenada pela Universidade de Coimbra, realiza de 30 de novembro a 4 de dezembro, um Retiro Anual com um programa online que inclui palestras abertas ao público em geral sobre vida saudável e envelhecimento ativo, desafios sociais e o papel da inovação. A iniciativa, que vai reunir alunos e parceiros para discutirem ideias colaborativas e planos de investigação de doutoramentos, inclui ainda cursos de Inovação e Empreendedorismo e workshops de desenvolvimento de carreira.
A iniciativa está organizada em quatro apresentações principais de livre acesso: “How can we extend healthy lives?” (30 de novembro, 09h15) com Thomas von Zglinicki, da Universidade de Newcastle; “From the kitchen to the bedside: understanding the molecular basis of synucleinopathies” (1 de dezembro, 10h) com Tiago Outeiro, da Universidade de Medizin Göttingen; “Societal challenges beyond and next to your PhD” (2 de dezembro, 10h) com Erik Buskens, da Universidade de Groningen, e “Innovation in Healthcare” (3 de dezembro, 10h) com Alexandre Lourenço, do Centro Hospital e Universitário de Coimbra e Doutorando na NOVA School of Business & Economics.
A escola de doutoramento EIT Health Ageing, focada no Envelhecimento, resulta de uma colaboração pan-europeia de parceiros académicos e não académicos do EIT Health, um programa europeu dedicado ao financiamento e mentoria de startups na área da saúde e das ciências da vida.
O objetivo desta escola é promover a formação internacional e intersetorial de uma nova geração de especialistas de doutoramento em ciências do envelhecimento, neurociência, gerontologia e epidemiologia, de forma a alcançarem competências sólidas de Inovação e Empreendedorismo (I&E) que possam usar para desenvolver e comercializar novas soluções de saúde.
É a primeira Escola de Doutoramento na área da saúde a ser distinguida com um EIT Label, um certificado de qualidade que é concedido a excelentes programas educacionais focados em inovação, empreendedorismo, criatividade e liderança e que são baseados no paradigma do triângulo do conhecimento: a integração entre inovação, investigação e ensino.
Tem um vasto conjunto de parceiros europeus, dos quais a Universidade de Coimbra, o Instituto Pedro Nunes e o Centro Hospital e Universitário de Coimbra.
noticiasdecoimbra..pt

 

No diário Aprendendo a Envelhecer _ Envelhecimento Ativo …

O cabelo branco de Glória Pires e o meu

No último domingo, dia 22, a revista Ela publicou uma excelente entrevista com a atriz Glória Pires, cujo tema foi o envelhecimento sob o seu ponto de vista. 

Glória deixou-se  fotografar no esplendor dos seus 57 anos. Parou de pintar o cabelo negro sempre elogiado, usou os looks mais lindos e perfeitamente  compatíveis com sua idade e nos deu algumas lições importantes. Para ela, é preciso aceitar o envelhecimento e as suas  limitações. Como ela mesma diz , porque envelhecer não é fácil,  “mas é mais fácil quando você abraça essa condição”. 

Envelhecer não é fácil, nós que já passamos dos cinquenta e sete e dos sessenta já sabemos. Nós que chegamos aos 70 e vamos trilhando cada ano, já temos algumas certezas e várias dúvidas. Entre muitas amigas que tenho, a maior parte já está chegando ou já chegou aos setenta. Temos consciência, hoje, de que chegamos aqui com muitos benefícios, bem diferentes das nossas avós que aos 60 já tinham um visual que nem os 80 de hoje conseguem copiar.  Minha avó usava o clássico chemisier, tinha o cabelo branco com um tonalizante azul pálido e uma rede finíssima para não desmanchar o penteado.

Minha mãe já era um enorme passo à frente, indo ao salão toda semana, escolhendo cuidadosamente vestidos mais modernos, tailleurs e terninhos, usando saltos grossos que eram moda, mas altos. Era vaidosa e adorava óculos modernos e blazers de linho. Eu já sou uma avó que sempre trabalhou,  que frequentou a universidade, que escolheu o momento de ter os filhos. A moda era o gosto pessoal, roupas boas e confortáveis, de corte impecável. Também sou da turma que  infelizmente fumou durante anos (um traço da minha geração), que se expunha ao sol como se não houvesse amanhã – o que não havia mesmo era o buraco na camada de ozônio e o filtro solar –  que passou pela ditadura e pela censura, que viu a cena histórica da chegada do homem à lua,   que dirigiu carro desde os 18 e que um dia pediu o divórcio depois de 23 anos de casamento,  sem medo de “destruir a família”.  Sou da geração que transformou e muito a vida dos filhos – especialmente das filhas – acolhendo  algumas revoluções de costumes, como a chegada da pílula anticoncepcional,  que mudaria completamente a nossa vida e das mulheres e que hoje têm entre 40 e 50 anos, nossas filhas.  Fomos as primeiras a considerar – com muita reflexão –  que namorados poderiam sim dormir com as nossas filhas desde que mantidos os anticoncepcionais e o bom senso. Enfim, vivemos  momentos decisivos. 

Para Glória Pires, deixar os fios brancos sem tintura é um sinal de liberdade, para mostrar-se como realmente é. Porque os tempos de hoje estimulam a liberdade. Pandemia, isolamento, quase não saímos e dispensamos a maquiagem estando em casa.  Ao sair, as máscaras já dispensam o batom e o blush. Só temos os olhos e o olhar, as sobrancelhas que falam em expressões, os olhos que sorriem tanto quanto a boca. O mundo mudou! A beleza é um conceito e se transforma. Homens e mulheres se cuidam pela saúde e pela vaidade.  Podem ter cabelos brancos ou tingidos nos tons que quiserem,  crespos ou lisos, porque a indústria cosmética dá o suporte nos xampus e cremes para os lisos absolutos, os cacheados maravilhosos ou os crespos rebeldes.  Podem ter rugas que riscam um rosto como se fossem seus rios e suas trilhas, porque a hidratação e a química simulam  o preenchimento do tecido que ressecou.  

Marcas e vincos contam histórias num rosto que parece dizer, vivi muito, colecionei histórias e sabedorias, tenho as mais lindas lembranças, tenho também as dores e as perdas daqueles que amei e que ficaram para sempre, mesmo deixando mágoas para trás. Aprendi que perdoar é libertador, que entender o outro é saber conviver com as diferenças, que  ter fé é um privilégio não importa em quais crenças e que principalmente aprender é por si o que de melhor temos a fazer nessa longa e tão curta vida.

 Zelia Prado