População de idosos não é única explicacão para mais mortes

A idade é uma variável importante para entender a pandemia de covid-19, mas não pode ser analisada sozinha.

Para muitos pesquisadores do Instituto Max Planck de Pesquisa Demográfica, na Alemanha, entre eles a brasileira Marília Nepomuceno, “a faixa etária deve ser analisada juntamente com variáveis que contextualizam cada país, como por exemplo, condições de saúde, desigualdades socioeconômicas, acesso a serviços médicos, composição das famílias, condições sanitárias, o privilégio de seguir as medidas de prevenção e distanciamento social, dentre outras, “ explica a brasileira.

Por isso, ela diz que o escopo de análise da demografia vai além dos efeitos de variações na estrutura etária.

“Essa é uma visão muito reducionista da área de estudos populacionais, que deve se preocupar não apenas com variações dos eventos entre grupos de idade mas também em cada um deles, ao longo do tempo e entre gerações”, explica.

De fato, de acordo com Nepomuceno, as taxas de letalidade são maiores em idades mais elevadas. “Mas os autores publicaram um exercício simplista”, diz.

“Para isso, os demógrafos examinam inúmeras outras variáveis de interesse para a sociedade e que no caso da covid-19 podem ajudar a explicar as diferenças no número de casos e de mortes.”

Marília alerta que uma abordagem que considera apenas a estrutura etária populacional para entender um fenômeno tão complexo como a pandemia de covid-19 pode não ser suficiente para compreender todo o fenômeno”, diz.

“Fatores contextuais, e não apenas a idade, devem ser considerados para um bom entendimento da pandemia no Brasil.”

Isso porque vários fatores demográficos, sociais, econômicos e governamentais podem explicar as variações entre países. Para exemplificar isso, o grupo, que inclui pesquisadores brasileiros, do Canadá e da Alemanha, analisou diferenças entre as condições de saúde associadas a mortalidade por covid-19 no Brasil e Nigéria em relação à Itália.

“Constatamos que as altas prevalências de doenças crônicas entre os adultos brasileiros, por exemplo, podem aumentar a vulnerabilidade desta população, com potencial para compensar parte dos benefícios da idade mais jovem.”

“Os resultados publicados, já apontados anteriormente, fazem parte de uma discussão complexa, que envolve muitos fatores simultâneos e que precisarão ser analisados ao longo dos próximos anos, até que toda a dinâmica da doença seja conhecida.

Para Maríia Nepomuceno, “a Ciência levará muito tempo para compreender a dinâmica de riscos da covid-19”,  avalia.

Compacto de conteúdo BBC

Como nossos “pais”: os males do isolamento

Nosso comportamento em confinamento social não difere muito do de outros animais sociais quando colocados em cativeiro: estar isolado tem um efeito profundo na nossa saúde física e mental. Por isso a importância em encontrarmos maneiras de brincar, jogar e rir no cotidiano em quarentena.

Os ensinamentos são da cientista chilena Isabel Behncke, que de diferentes formas se dedica a estudar as raízes da natureza humana e de animais sociais. Ela estudou Biologia em Santiago, Zoologia em Londres e fez pós-graduações em conservação biológica e antropologia evolutiva, também no Reino Unido.

Para seu doutorado em primatologia na Universidade de Oxford, passou três anos na selva da República Democrática do Congo estudando os bonobos, que, ao lado de chimpanzés, são nossos parentes evolutivos vivos mais próximos. Na quarentena, ela se dedica a escrever um livro sobre a experiência.

Seus estudos nos ajudam a entender por que somos como somos – e os efeitos que a quarentena imposta pela pandemia exercem sobre nós, como indivíduos e como espécie. E por que sentimos tanta falta de atividades triviais, como almoçar com colegas de trabalho ou passear?

Uma questão relacionada ao nosso comportamento social.

“Somos primatas sociais e estarmos isolados tem um efeito profundo em nossa saúde física e mental. Quando observamos os animais enjaulados, sejam cetáceos (baleias e golfinhos), cavalos, elefantes, papagaios, primatas ou grandes predadores, o que vemos são os chamados comportamentos repetitivos, como se coçar até provocar lesões ou dar voltas nas jaulas”, explica.

“E talvez você se pergunte: como identifico o que é um comportamento repetitivo causado pelo estresse, versus movimentos que possam ter outras causas? Em geral não variam muito e não têm uma função.”

“Então, quando vejo como começamos a fazer scroll nas redes sociais, sem interagir, simplesmente de maneira passiva, repetitiva, o que observo são humanos em cativeiro. Não é muito diferente dos papagaios enjaulados, que começam a arrancar as (próprias) penas.”

A chilena explica que jogos, atividades e brincadeiras são um exercício antigo e universal praticado por seres imaturos (ou seja, as crias) de mamíferos e pássaros. Mas tem efeito crucial na população em geral, principalmente em tempos de quarentena – desde montar quebra-cabeças e dar risada até cozinhar algo por prazer são atividades que trazem grandes benefícios.

“Isso é muito importante para a saúde física e mental, para a resiliência e para a criatividade”, explica Behncke.

“Mas a brincadeira é uma conduta sensível ao medo. Quando aumenta o estresse, aumenta a resposta fisiológica, que por sua vez tende a diminuir e suprimir o jogo. Por isso, temos que prestar atenção à frequência com a qual estamos dando risada, se na pandemia podemos encontrar maneiras de rir todos os dias, falar por videochamada com alguém que te divirta, ler literatura, ver comédias.”

É preciso fazer o que for necessário, diz ela, “para manter a brincadeira na vida, sobretudo em tempos nos quais é mais difícil fazê-lo, por medo ou incerteza”.

“Mas há outro ponto. Diferentemente de outros animais, nós humanos desenvolvemos rituais sociais, como ir a shows, missa, sair para dançar ou a bares. Os rituais coletivos são muito importantes porque sincronizam os grupos: eu me movo contigo, rio contigo, canto contigo e forjo um laço contigo. Pense nos gritos (das torcidas) de futebol no estádio.” “Tudo isso está desaparecido com o vírus, e é um experimento impressionante. Não só não temos os rituais coletivos, como estamos vivendo um trauma coletivo. Por isso acho que vamos precisar voltar a restaurantes e pubs, ao estádio, a shows e a dançar nas festas.”

Compacto do conteúdo BBC Brasil

Sala de Aula: Costanza Pascolato ensina o Essencial hoje na Moda

Ela é considerada a mulher mais elegante do Brasil no exterior. Costanza Pascolato, 80 anos, coleciona feitos. É a mais completa traducão de Resiliência. Venceu o câncer duas vezes, o Idadismo, se aventurou em amores (foi casada com o compositor Nelson Mota) e agora foi contratada para uma consultoria importantíssima ($$$$$).  Fora o que é também exímia em informática. A jornalista Lilian Pacce é a autora desse delicioso bate-papo. Thereza Christina P Jorge

“A sensação é de que o mundo do Covid-19 teve que buscar novos caminhos, novos valores. Muita gente fala de retorno ao básico, ao essencial. É sobre isso que eu converso com a consultora de moda Costanza Pascolato, que do alto de seus 80 anos já viu muita coisa virar moda e muita moda passar.

Esse vídeo é resultado dos melhores momentos de uma live feita com o time da Shop2gether, uma plataforma de comércio digital fundada por Ana Isabel de Carvalho Pinto e da qual Costanza é consultora há sete anos. Se você gostar, compartilha com os amigos! Sim, faz os 3 Cs: curte, comenta e compartilha!” Lilian Pacce

 

Após a quarentena, como priorizar o envelhecimento ativo?


Na live da Iniciativa FIS sobre O Dilema do Retorno dos Idosos `vida social externa, após o confinamento, no início de julho, o diretor geral da Universidade da Terceira Idade da Uerj, geriatra e professor Renato Peixoto Veras afirmou que tem esperança de um salto da medicina brasileira após a vacina contra o Covid-19. “Veremos uma medicina mais humanizada, o fortalecimento do SUS e a difusão da telemedicina trazendo o Médico de Família para cada casa.”

Os debates sobre o papel do idoso no mundo pós-pandemia estão presentes em vários países. Em Portugal, por exemplo, especialistas do Social Inclusion Laboratory (SINCLab), da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, alertaram  para a necessidade de se retomarem, à medida que são levantadas as medidas de confinamento, os projetos que promovem o envelhecimento ativo.

sociedade tem a responsabilidade de, tendo excluído o idoso sob a égide do resguardo e da proteção, preparar a saída do confinamento e repensar o enquadramento a dar a esta população”, lê-se no comunicado enviado pelo SINCLab.

“Em alguns locais do país, temos cerca de 35 a 40% da população com mais de 65 anos e para as quais têm de existir respostas sociais que não sejam apenas assistenciais, uma vez que se trata de uma população que cada vez tem mais condições de saúde e que precisa de envelhecimento ativo, ou seja, de respostas que vão para lá daquilo que nesta altura tanto se fala”, defendeu Rui Serôdio.

Para os coordenadores do laboratório da Universidade do Porto, que trabalha com os 17 municípios da Área Metropolitana do Porto (AMP) em prol do envelhecimento ativo, “a identidade do sénior não pode ser posta em causa por decreto”.

“Todos os dias, a população idosa recebe uma mensagem terrível de quase morte anunciada e é preciso pensar nisso e trabalhar essa imagem”, defenderam.

Para Alexandra Serra, as respostas sociais “de caráter imediato” que surgiram no âmbito da pandemia da covid-19 podem vir a ser “aprendizagens para o futuro”, mas considera que é necessária a intervenção política e do poder local nesta matéria.

“Estas questões do envelhecimento ativo passam por uma forte intervenção e envolvimento das comunidades na vida das pessoas, por isso, era muito bom que destas respostas que surgiram para proteger esta população, gerassem alguns frutos e a possibilidade de continuidade no futuro, mas estas respostas têm de ter um enquadramento em termos políticos e do poder local”, salientou a responsável.

Acrescentando que é necessária uma mudança de “enfoque”, passando da resposta sanitária e assistencial para “algo mais ambicioso que vê o idoso como uma pessoa com direitos, obrigações e oportunidades para ter uma participação plena e ativa na sociedade”.

Também Rui Serôdio considerou que é fundamental, neste momento, “pensar-se no depois”, ou seja, tornar a mudar o “ênfase para as questões de cidadania e direitos desta população”.

Face às eventuais medidas de proteção e segurança que podem vir a ser aplicadas a esta população, os especialistas acreditam que as respostas promotoras do envelhecimento ativopodem vir a ser executadas “de forma mais particular”.

“Podemos vir a ter respostas não tanto em grandes grupos, como até agora víamos, mas de forma mais particular, mas que continuem a estimular estas pessoas. Isso seria muito interessante pois obriga, uma vez mais, a reformular os nossos paradigmas junto desta população”, concluíram.

Fim do isolamento: Vamos aprender a viver em “bolhas”?

Ninguém aguenta mais a quarentena imposta pela pandemia de coronavírus. Quem pode fazer isolamento social já está há quase quatro meses praticamente olhando para as paredes. Para enfrentar essa maratona que não tem fita de chegada à vista, muita gente está flexibilizando seu confinamento e encontrando outras pessoas que também estão isoladas. Cada um na sua bolha, mas em contato para não “surtar”. A razão disso é o peso mental do isolamento. Quanto mais rigorosa a quarentena, maior o custo para o bem-estar psicológico, dizem os especialistas. A psicóloga Mary Yoko Okamoto, professora de pós-graduação na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e uma das responsáveis pelo programa de teleacolhimento dos calouros, diz que insegurança, incerteza e medo do futuro são os sentimentos mais comuns deste período. 

Como montar sua bolha

Essas soluções individuais não são invenção nossa. Foi lá fora que surgiram os termos “bolhas” e “microbolhas sociais”. Quando começou a retomar a vida social após um enfrentamento bem-sucedido da pandemia, a Nova Zelândia recomendou que as pessoas continuassem dentro da bolha de suas casas, mas que começassem a expandi-la para se reconectar com a vida lá fora. Na Inglaterra, o governo britânico recomendou que as bolhas sociais, geralmente familiares, fizessem combinações com dois ou três outros grupos.

O psicanalista Christian Dunker afirma que nossa capacidade de suportar privações é finita. “Não somos de aço inoxidável ou de elástico. Nós estamos pagando um preço psíquico pelo isolamento. O contato com o outro representa o nosso reconhecimento. Dependemos do outro para entender melhor o que sentimos”, explica o professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Ampliar a bolha individual aumenta o contato social, contribui com o equilíbrio emocional e tenta minimizar o risco de transmissão da doença. Se ocorrer uma infecção, ela permanece na bolha e não será transmitida a outras pessoas. Pode ser uma saída temporária à espera da vacina ou de um remédio eficaz contra a covid-19

Não dá para comparar a situação da Nova Zelândia e do Reino Unido com a do Brasil, mas a ideia é a mesma. A decisão de encontrar alguém pessoalmente é delicada, pois a pandemia ainda não acabou por aqui. A retomada de atividades não essenciais em várias cidades, como a abertura de shoppings e academias, por exemplo, traz uma sensação de fim da pandemia. É falsa. Não acabou. 

Existem situações mais complexas para criar bolhas, além dos laços familiares, como amigos que dividem o apartamento, por exemplo. Como controlar que todos se protejam na mesma medida se os laços não são tão fortes? 

Cuidados têm de ser respeitados, alertam especialistas

Embora reconheçam o desgaste emocional causado pela quarentena, epidemiologistas e infectologistas se dividem sobre a eficácia das medidas de prevenção nos encontros presenciais. Alguns se mostram céticos quanto à ausência de beijos e abraços. Outros alertam para a possibilidade de contaminação pelo ar. Todos destacam a necessidade de disciplina para que as bolhas minimizem o risco de contágio.Desde que exista disciplina, com cuidados antes e durante o encontro, não há problema, opina a infectologista Rosana Richtmann. “É prática que, com segurança, pode garantir que as pessoas tenham algum tipo de vida social”, diz a médica do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Grupo Santa Joana.

“Do ponto de vista psicológico, é compreensível que as pessoas comecem a fazer as próprias recomendações. Nós convivemos com o medo, da morte e da doença, por muito tempo e em isolamento. E os riscos vão existir sempre”, afirma a infectologista Sylvia Lemos Hinrichsen, consultora de Biossegurança e Controle de Riscos da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Para minimizar esses riscos, Márcio Bittencourt, mestre em Saúde Pública e médico do Hospital Universitário da USP, recomenda o uso de máscaras, além da higienização das mãos. Também é necessário, completa o especialista, evitar lugares fechados, o contato prolongado e as aglomerações. O médico e professor Jean Gorinchteyn, também do Emílio Ribas, mostra ceticismo quanto à adoção das medidas. “As pessoas não vão se encontrar ao ar livre. Em geral são jantares ou almoços. Numa mesa, ninguém vai manter 2 metros de distância. Além disso, elas vão retirar as máscaras para comer. Esse é um cenário de risco”, adverte o infectologista.

Paulo Eduardo Brandão, virologista da Faculdade de Veterinária da USP, adiciona outro alerta: a possibilidade de transmissão do novo coronavírus pelo ar. Na semana passada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um informe científico em que passa a considerar o fato. “O vírus precisa de pessoas perto de pessoas, mas ele também se transmite pelo ar. Esse é um risco que mina a hipótese de segurança em um parque ou praia”, exemplifica. (Compacto do Estadão Digital). 

O que era “normal” passou a ser considerado crime

Uma ressalva importante: apesar do Estatuto do Idoso ser conhecido apenas por 35% do seu público potencial, estamos mais conscientes em relacão aos crimes contra os mais velhos.
Ontem, divulgamos que em 2019 o Disque Direitos Humanos registrou 48,4 mil denúncias de violações contra idosos.
Eis a ressalva: às vezes, a divulgação de números sobre a violência contra idosos parece mostrar um aumento de atos violentos. Na verdade, pode ser, ao contrário, o registro da mudança de mentalidade da sociedade.
Thereza Christina Pereira Jorge

Brasil registra 48,4 mil denúncias de violações contra idosos em 2019

Conforme o balanço do Dique Direitos Humanos (Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) , as violações mais constatadas são negligências (38%), violência psicológica (26,5%), abuso financeiro/econômico (19,9%) e a violência física (12,6%).

O Brasil registrou 48,4 mil denúncias de violações cometidas contra idosos no ano de 2019. O número é 22,6% maior do que em 2018. As informações fazem parte de um balanço do Disque Direitos Humanos (Disque 100), que registrou apenas 398 ocorrências do tipo no Tocantins durante o período em questão.

O resultado coloca o Estado entre os que possuem os menores índices de denúncias do país. Conforme o balanço do Dique Direitos Humanos, as violações mais constatadas são negligências (38%), violência psicológica (26,5%), abuso financeiro/econômico (19,9%) e a violência física (12,6%).

Criado em 2003, o Estatuto do Idoso (Lei Federal Nº 10.741), visa garantir direitos a todas as pessoas que vivem no Brasil e possuem mais de 60 anos. A legislação aborda desde questões ligadas à família, assim como obrigações na área de saúde pública, assistência social e punições no caso de violações.

Atualmente o Disque Direitos Humanos, disponível por meio da central telefônica 100, também pode ser utilizado para denúncias relacionadas a violações contra crianças e adolescentes, pessoas com deficiência, moradores de rua, discriminação por gênero, cor, raça, religião, entre outras situações.

guarainoticias.com.br

 

Fórum discute inclusão de idosos nas empresas

O CEO do Grupo Boticário, Artur Grynbaum, acredita que a questão geracional é prioritária para empresas também por causa do envelhecimento dos consumidores. “Diversas vezes eu tive consumidoras entrando nas lojas perguntando como uma menina poderia indicar para ela produtos de skincare, voltados para um público mais maduro.”

A entrada da chamada geração Z (pessoas que nasceram entre 1995 e 2010) no mercado de trabalho traz desafios para empresas tradicionais, que precisam estar preparadas para lidar com a diversidade etária e para colocar a seu favor a multiplicidade de perspectivas das diferentes gerações que convivem em um mesmo ambiente de trabalho.

Com a preocupação sobre o futuro das relações profissionais, um grupo de empresas patrocinou o lançamento do Fórum Gerações e Futuro do Trabalho, que pretende discutir e aprimorar processos de diversidade geracional dentro do mundo de negócios.

O primeiro webinar da iniciativa ocorreu ontem e reuniu representantes dos cinco patrocinadores: o Itaú Unibanco, a companhia de seguros Chubb, o grupo de energia EDP, o Grupo Boticário e a companhia de consultoria e auditoria PWC. O Fórum é promovido pela consultoria Mais Diversidade.

“A discussão sobre diversidade no Brasil cresceu nos últimos dez anos, abarcando temas como LGBTI+, gênero, raça e pessoas com deficiência. Mas havia um espaço para debater as questões geracionais”, afirma Ricardo Sales, diretor-executivo do Fórum.

O tema envolve aspectos como aumento da expectativa de vida, mudanças previdenciárias e digitalização dos processos. “Estamos falando de uma nova maneira de fazer negócio e de relacionamento entre cliente e colaboradores. Pela primeira vez, temos quatro gerações diferentes trabalhando no mesmo ambiente”, afirma Leila Melo, diretora executiva do Itaú.

Buscando ampliar o número de colaboradores mais velhos, o Itaú criou um projeto-piloto para contratação de 20 profissionais com mais de 50 anos em agências de São Paulo. Cada um atuava como “consultor de longevidade”, e orientava clientes a partir dessa faixa etária a utilizar os canais digitais do Itaú. “O crescimento dessa jornada digital completa para os clientes atendidos foi de 80% quando comparado com o grupo de controle”, explica Leila.

O CEO da Chubb, Antonio Trindade, diz que o mercado de seguros tem evoluído do ambiente tradicional para o universo digital e que, para preservar vagas, busca capacitar funcionários. “Viemos trabalhando para retreinar nossos colaboradores, para lhes dar apoio nas ferramentas, aumentar suas capacidades técnicas e sua permanência no mercado de trabalho.”

O CEO do Grupo Boticário, Artur Grynbaum, acredita que a questão geracional é prioritária para empresas também por causa do envelhecimento dos consumidores. “Diversas vezes eu tive consumidoras entrando nas lojas perguntando como uma menina poderia indicar para ela produtos de skincare, voltados para um público mais maduro.”

Para auxiliar pessoas no aprimoramento dos processos digitais, a PWC Brasil liberou durante a pandemia o acesso gratuito ao aplicativo DFA, que aplica um teste de conhecimento e fornece informações sobre temas digitais. Ao concluir as etapas, o usuário recebe pontos para diferentes competências profissionais “É importante, porque você consegue, a partir dali, propor novas ideias para a sua empresa e se aprimorar em conteúdo”, diz sócio-líder da PWC, Leandro Camilo.

O CEO da EDP Brasil, Miguel Setas, aponta para a transformação em diversas frentes nos últimos anos. “Estamos em um momento de transição, que envolve também a passagem dos combustíveis fósseis para os renováveis. É um desafio enorme fazer essa transferência geracional de uma empresa que foi fundada há 50 anos para a geração que está chegando agora. Entre 40% e 50% das pessoas que trabalham na empresa vão se aposentar nos próximos dez anos”, afirma Setas.

“A discussão sobre diversidade cresceu no Brasil. Mas havia espaço para debater as questões geracionais”

Ricardo Sales

DIRETOR DO FÓRUM GERAÇÕES E FUTURO DO TRABALHO

Estadão Digital

E se envelhecer não fosse um drama?

O envelhecimento populacional é uma mudança em escala global, nunca antes vista. Já alterou e vai continuar a alterar decisivamente a vida de todos nós, independentemente da idade. Apesar disto, o debate público sobre o envelhecimento continua a estar virtualmente restrito ao tema das pensões e dos cuidados de saúde. Algo que não surpreende, tendo em conta a hegemonia do discurso catastrofista sobre a velhice.

Diversas organizações nacionais e internacionais têm tentado marcar a agenda política com uma perspetiva mais ampla. O alinhamento de diversos órgãos das Nações Unidas e da União Europeia em torno do discurso do “Envelhecimento Ativo” é um bom exemplo disto e pode ser visto como uma conquista (cada vez mais próxima de uma vitória de Pirro).Infelizmente ainda há pouco para comemorar. A falta de uma perspetiva partilhada sobre o que é o envelhecimento ativo tem, na prática, resultado em políticas bastante contraditórias e muitas vezes limitadas ao binómio saúde e reformas. Supervalorizando assim uma “velhice moderna” e “produtivista”, onde os velhos, preservados biologicamente e com boa saúde, passam a ter a obrigação de devolver à sociedade o investimento que esta fez, através de mais anos de trabalho.

Ao deslegitimar certos modos de envelhecer, cria-se um imperativo que dita a prescrição da maneira correta de se envelhecer. Passamos a olhar a velhice como uma só, responsabilizando os sujeitos pelo próprio fracasso ao se afastarem das prescrições do bem viver, desconsiderando outros aspectos fundamentais, como por exemplo género e a classe social.

O principal desafio para as políticas públicas é reafirmar a existência de diferentes maneiras de envelhecer, recentrando o debate demográfico em torno da ideia de solidariedade intergeracional. É preciso enfatizar a possibilidade de criamos coletivamente outra relação com a velhice e reverter a tendência de precarização do envelhecimento. Toda a gente quer viver mais, ninguém quer ser velho. Isto não precisa e não deve ser assim.

A Revolução da Longevidade

Um dos primeiros passos nesta direção é reconhecer que sabemos pouco sobre esta mudança. O simples facto de estarmos a viver este fenómeno pela primeira vez na história da humanidade deveria ser suficiente para nos refrear a soberba. Em 1920, a esperança de vida à nascença em Portugal era próxima dos 36 anos. Em 2020 os novos portugueses já esperam viver, em média, mais 44 anos (80 no total). Para além disto, é importante destacar que ao completar os 60 anos, os portugueses vivem em média mais 24 anos, dos quais aproximadamente 18 em boa saúde.

Esta impressionante mudança demográfica observada em Portugal e no mundo fica ainda mais evidente se tomarmos em conta um período mais alargado da história. De facto, a maior parte da história humana é caracterizada por uma longevidade estagnada nos 40 anos. Durante muitos séculos, a humanidade estava adaptada para uma vida “curta”, baseada em altos níveis de natalidade e mortalidade. Um padrão que só seria quebrado com os desenvolvimentos advindos da Revolução Industrial.

Tão importante quanto a possibilidade de viver mais, é o facto da estrutura da sociedade ter mudado. A proporção de indivíduos com 60 ou mais anos em relação ao total da população já é superior a 27 por cento e as projeções do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que esta mesma proporção cresça para 35 por cento já em 2030 (cerca de 1 em cada 3 residentes).

Estas mudanças advêm fundamentalmente de dois movimentos com impactos no topo e na base de uma imaginária pirâmide, que no passado representava a estrutura etária da população portuguesa: uma larga base de crianças e jovens, que se afunilava em direção ao topo onde se encontrava uma pequena parcela de indivíduos mais velhos.

A principal alteração na base foram a redução na mortalidade infantil e na fecundidade média. Vale a pena lembrar que para além de terem menos filhos, as mulheres portuguesas também tem tido o seu primeiro filho cada vez mais tarde na vida. Com implicações diretas na estrutura da população corrente, mas também futuras, visto que implica em maiores taxas de famílias que involuntariamente não têm filhos ou têm menos filhos do que o desejado.

Importantes intervenções de saúde pública, como a promoção de hábitos de vida mais saudáveis, a expansão dos serviços sanitários, e outros desenvolvimentos na área da medicina, como as vacinas e os antibióticos, deram o grande impulso para a redução da mortalidade. Mais recentemente, intervenções especificas, como as cardiovasculares, tem sido apontadas como principais responsáveis pelo aumento da longevidade na população mais velha. Em resumo, a população tem envelhecido porque passamos por grandes mudanças, tanto do ponto de vista da saúde pública e melhoria das condições socio económicas em geral, mas também em relação à composição e organização das famílias.

Entender a origem desta mudança ajuda-nos também a reconhecer que a conquista da longevidade implica alterações com repercussões sócio-culturais em todo o percurso da vida. Basta olharmos para as nossas famílias e compararmos, por exemplo, o número de filhos que cada geração teve, ou a mudança na proporção entre avós e netos. Lembrando ainda que esta grande mudança ocorre num período de intensa urbanização e transformações nas normas sociais, como, por exemplo, o crescente número de famílias monoparentais, divórcios e reconfigurações familiares diversas.

Qual o papel desempenhado por cada indivíduo nessas relações? O que fazer com os quase vinte anos adicionados à vida? O que fazer com aqueles que não conseguiram, puderam ou quiseram caber no «modelo positivo de envelhecimento»? Ainda faz sentido organizarmos as sociedades em torno de atividades exclusivas e segmentadas, como na típica estrutura tripartida: aprendizagem durante a infância, trabalho durante a vida adulta e aposentadoria na velhice?

Como vão as famílias se reorganizar? Que novas possibilidades de relacionamento serão criadas, e como devemos responder a estas novas necessidades? Como lidar com expectativas afetivas de amparo quando filhos únicos não têm como atender às necessidades parentais? Debater o envelhecimento populacional é, portanto, fundamental porque, num período relativamente curto de tempo, este fenómeno tornou obsoletas instituições que demoraram séculos para se consolidar e promoveram verdades enredadas a emoções.

Combater o idadismo e a precarização da velhice

Diversos acontecimentos políticos recentes tiveram a questão do envelhecimento populacional como pano de fundo. Desde logo, é importante lembrar que a população mais velha, em particular os reformados, foram provavelmente o alvo preferencial das políticas de austeridade aprofundadas no seguimento da crise de 2008. Os cortes nas pensões e a aprovação de políticas destinadas a reduzir os gastos com os sistemas de previdência, passaram a ser um dos pilares do receituário económico aplicado por toda a Europa. Entre as manifestações públicas de larga escala e com visibilidade global que mais chamaram a atenção recentemente, pelo menos duas, Chile e França, centram-se na questão dos cortes nas pensões.

Outro exemplo são os resultados das últimas eleições no Reino Unido e a suposta clivagem entre gerações. Este argumento foi amplamente utilizado por analistas políticos, quase ao ponto de nos sugerir que há algum mecanismo biológico que faz com que o indivíduo, ao envelhecer, se torne automaticamente mais conservador.

Neste ponto cabe ressaltar que as expetativas, as crenças e o conjunto de suposições que fazemos sobre o envelhecimento, sobre as pessoas idosas ou sobre o “ser velho”, não têm apenas profundo impacto na construção coletiva da velhice, mas também afetam diretamente as condições de vida das pessoas, em termos de saúde, emprego, e oportunidades em geral.

Estes estereótipos influenciam não somente as nossas decisões individuais, mas também afetam diretamente a nossa performance. Para além das barreiras concretas impostas pelos estereótipos, há ainda o risco de uma adesão inconsciente dos próprios indivíduos, passando a agir, portanto, de acordo com as expectativas.

Inspirada na expressão inglesa “ageism”, o idadismo é o nome que se dá em português ao fenómeno da discriminação com base na idade, em particular em relação às pessoas mais velhas. O termo ainda é controverso e pouco utilizado, mas tem vindo a ganhar corpo tanto no debate público como na investigação académica. É importante lembrar que este tipo de preconceito atinge diferentes idades e também implica em estereótipos positivos. O idadismo tem um paralelo claro com outros “ismos” (ex.: racismo, sexismo), no sentido em que expressa uma construção negativa do envelhecimento, produzida de forma complexa tanto ao nível individual quanto social.

O discurso que opõe os mais jovens e os mais velhos é um grande equívoco. Não há nenhuma evidência que confirme a ideia de que o envelhecimento populacional tem impacto negativo na economia. Tampouco que corrobore a ideia de que os direitos conquistados pelas gerações anteriores limitam as oportunidades dos mais jovens.

A perda de uma visão integral do envelhecimento contemporâneo, favorecendo formas de pensar e ações fragmentadas, e a forma como o envelhecimento é tratado no debate político têm uma influência particularmente importante nesta construção. Não só pelo facto de marcarem a agenda, mas também por produzirem mudanças concretas na vida de cada pessoa e por influenciarem diretamente as relações interpessoais. O debate em torno das idades da reforma (voluntária e compulsiva), e o direito da família, são provavelmente os melhores exemplos disto.

O discurso que opõe os mais jovens e os mais velhos é um grande equívoco. Não há nenhuma evidência que confirme a ideia de que o envelhecimento populacional tem impacto negativo na economia. Tampouco que corrobore a ideia de que os direitos conquistados pelas gerações anteriores limitam as oportunidades dos mais jovens. Em muitos casos, é justamente graças ao apoio mútuo, em particular dos cuidadores informais, que conseguimos evitar tragédias sociais maiores.

Os mais jovens estão certamente mais vulneráveis no atual contexto de precariedade generalizada. Vidas precárias fatalmente resultarão numa velhice precária, não apenas do ponto de vista do trabalho e dos rendimentos, mas também do ponto de vista relacional. No entanto, é importante recordar que a precariedade tem também impactos diretos e indiretos nas condições de vida, oportunidades e decisões dos outros membros da família.

Estas são algumas das razões que fazem da discussão em torno do envelhecimento um tema fundamental para todas as gerações, obrigando-nos a repensar o nosso modo de vida presente e futuro. Que perspetivamos sobre o papel do cuidador (o nosso e dos que estão à nossa volta) perante a fragilidade temporária ou permanente que inexoravelmente virá, a sobrecarga das famílias com a própria sobrevivência e um paradigma dominante de privatização das políticas para o fim da vida, onde os mais velhos não são os protagonistas das próprias decisões?

Se «viver é envelhecer», como afirmou Simone de Beauvoir, por quanto tempo pretendes viver? Como pretendes usufruir destes dias? Queres ser sujeito das políticas ou simplesmente estar sujeito às políticas?

As respostas a estas e outras perguntas não são simples e não trazem receitas de fácil aplicação. No entanto, são questões fundamentais para alargar a reflexão sobre o envelhecimento que estamos a viver, ajudando a encontrar mais e melhores motivos para a ação.

Gustavo Sugahara é economista, investigador do SERAF (Universidade de Oslo) e do DINÂMIA’CET-IU. Artigo publicado na revista Esquerda (Portugal) em março de 2020