Porque invejar a juventude é bobagem

Perto de chegar à terceira idade, a psicóloga curitibana Anabela Sabino, 58, escreveu o livro “Amadurecendo com Sabedoria”, onde leva o leitor a refletir sobre suas ideias e comportamentos relacionados à velhice. “Vejo, hoje, que tenho muitas coisas para realizar, porém, sem pressa, sem cobrança, sem medo de fracasso ou ansiedade de sucesso, sem ter que corresponder às expectativas de ninguém”, diz.

Na entrevista, ela fala da importância da família na vida do idoso, de como lidar com arrependimentos e os pensamentos sobre a proximidade da morte. Anabela também sugere mecanismos para ter mais qualidade de vida, como ouvir as músicas favoritas.

O livro é recomendado para pessoas acima de que idade?

Escrevi pensando nas pessoas acima dos 60 anos, pois abordo situações que dizem respeito aos sentimentos associados à aposentadoria, à solidão, às limitações físicas, à morte, entre outros. No entanto, recomendo a leitura após os 40 anos, pois o envelhecimento é um processo, não ocorre de repente, e podemos evitar muitos dissabores. Por exemplo: a pessoa que dedicou a vida toda ao trabalho ou exclusivamente para a família, quando se aposenta, ou os filhos saem de casa, sente um imenso vazio. Alertada antes para essa possibilidade, ela pode começar a cultivar outros interesses, o que certamente ajudará a equilibrar as emoções.

O que a senhora aprendeu ao escrever o livro? Já colocou em prática?

Eu nunca havia pensado de forma otimista para essa fase de minha vida. Quando pensava na velhice, meu olhar era superficial, pensava nas rugas cada vez mais intensas, nos problemas de saúde que costumam aparecer, na solidão… O pior de tudo era o olhar penalizado que dirigia para mim mesma. Enfim, nada estimulante. Tenho 58 anos, segundo a Organização Mundial de Saúde, sou quase uma idosa, e vejo isto com muito bom humor. O que eu escrevo faz parte de verdades que me acompanham intimamente há décadas, apenas precisava de mais reflexão e torná-las mais conscientes. Hoje, vejo que tenho muitas coisas para realizar, porém, sem pressa, sem cobrança, sem medo de fracasso ou ansiedade de sucesso, sem ter que corresponder às expectativas de ninguém. O idoso pode se dar esse luxo. Não é maravilhoso?

Tem algum segredo para amadurecer com sabedoria?

Eu consigo pensar em alguns segredos para amadurecer com sabedoria, e muitos para serem descobertos pelos meus leitores em seu próprio processo de envelhecimento. Viver cada etapa da vida e o que ela oferece de melhor. Desde a inocência da infância; o vigor e a tempestividade da adolescência; às dúvidas e às indecisões do início da fase adulta; os feitos e os desfeitos da maturidade e a serenidade da última etapa da vida na Terra, relembrando de tudo com alegria, porém sem o saudosismo de quem quer voltar no tempo. É um promissor caminho para a sabedoria.

O que fazer para aproveitar o melhor da vida?

O melhor da vida deve ser sempre o momento presente. Aproveitar o que ele pode nos oferecer de melhor. A ideia menos lógica é viver fora do seu tempo, ou no passado ou no futuro. Como se pode aproveitar o melhor da vida, assim? E para o idoso, seja qual for a sua idade, o seu tempo é o ano 2016.

Com o passar dos anos, podem surgir arrependimentos.

A sabedoria da terceira idade permite um olhar mais criterioso e profundo sobre suas ações do que na juventude. É compreensível o arrependimento das faltas cometidas. Porém, se apagássemos todos os erros do passado, apagaríamos também parte da sabedoria conquistada. Somos aquilo que conseguimos ser, este é o melhor pensamento.

Como viver bem após se aposentar?

É comum as pessoas fazerem planos para quando se aposentarem. “Quando eu me aposentar vou ter tempo para fazer isto e aquilo”. Não deveriam esperar se aposentar para colocar em prática as aspirações de futuro. Dando início agora aos nossos projetos, será muito mais natural dar continuidade depois que estivermos aposentados. Também não precisam ser projetos glamorosos. Lembre-se que, ao se aposentar, você pode não ter o mesmo pique e se frustrar. Vale lembrar que o afastamento do trabalho remunerado por tempo de serviço não implica o afastamento da atividade útil, nem eterna recreação. A rotina básica e equilibrada traz segurança emocional. Há muitas atividades úteis à comunidade, dentro e fora da sua área profissional, que carecem de alguém para realizar. Pode ser uma ótima oportunidade para desenvolver outras áreas de interesse e potenciais pouco explorados.

A sociedade preza muito a juventude. O que se perde ao focar a vida nessa busca constante em parecer jovem?

Existe uma tendência geral de não aceitação da idade que se tem. A criança se recente de ser chamada assim; o adolescente anseia por ser independente; na maturidade há uma busca neurótica em aparentar menos idade e, para o idoso, ser chamado de velho é quase um insulto. Nessa busca neurótica pela juventude, deixamos de viver com plenitude o momento presente, estamos sempre nos colocando onde não estamos, almejando o que não temos, valorizando o que não somos.

Por isso não se deve invejar a juventude?

Invejar a juventude é um grande engano. Ver a velhice com pesar, como se eles nunca tivessem sido jovens, também. Os jovens não têm garantia de poder viver todas as etapas de vida que o idoso alcançou. Para eles, o futuro são possibilidades; para o idoso é fato consumado, vivido. É um privilégio finalizar a existência com cabelos brancos e rugas profundas, coisa que os mais jovens não têm garantia.

Com o avanço da idade, as pessoas começam a pensar na morte. Como lidar com essa etapa?

A morte pode acontecer a qualquer momento da vida, mas na velhice fica mais evidente. Uma amiga foi ajudar sua avó a organizar uma lista telefônica, e mais da metade dos seus conhecidos tinha falecido. Como não pensar na sua própria morte? Muitos questionamentos são feitos quanto aos destinos do ser após a morte. A morte na velhice não vem de surpresa, anuncia-se, gentilmente, através das restrições físicas. Quem tem a sorte de completar todas as etapas do processo da vida está, naturalmente, mais bem preparado para cogitar sobre sua própria morte.

Em algum momento o idoso vai precisar aceitar ajuda?

Sim. A partir de um certo momento, o idoso vê gradativamente a perda de sua autonomia e é preciso reconhecer a necessidade de outra pessoa para auxiliá-lo no seu dia a dia. O que nem sempre é fácil de aceitar. Uma das grandes lições a ser aprendida por aquele que sempre foi autossuficiente pode ser a humildade em admitir que é chegada a hora de pedir ajuda. Não há uma única situação na vida em que não podemos aprender uma lição. Isso faz com que todo sofrimento vivido não tenha sido em vão.

A senhora fala para os idosos conviverem com as crianças. O que eles ganham com isso?

Onde há criança tem alegria e vida. O idoso recebe estímulo vital, carinho e afeto que só as crianças sabem oferecer. A pretexto de encontrar tranquilidade, o idoso jamais deveria se afastar do convívio das crianças.

Ouvir música pode ajudar na velhice?

A memória musical é a mais difícil de perder. Mesmo em caso de amnésia grave, permanecem intactas no cérebro ilhas dessa memória. O contato com músicas ouvidas na infância e na juventude trazem recordações e emoções associadas a esses períodos da vida. A música pode agir como ponto de acesso, abrindo caminho para novas conexões cerebrais. É uma terapia agradabilíssima, capaz de melhorar a qualidade de vida na velhice. Por isso, sugiro que ouçam suas músicas prediletas.

É preciso focar na qualidade de vida?

Ela é importante em todas as fases de vida e não poderia ser diferente aqui. Por exemplo: o médico geriatra tem a mesma função que o clínico geral, só que voltado para o envelhecimento. Pode ser consultado, preventivamente, para orientar como envelhecer de forma saudável. Do ponto de vista biológico, na idade avançada, é mais frequente o aparecimento de fenômenos degenerativos e de doenças. Alguns desses sintomas podem ter seu aparecimento retardado ou amenizado com exercícios específicos e atividades sociais.

Quem não se planejou, o que pode fazer para viver bem essa fase?

Em muitos casos, a ideia de que os filhos vão acompanhá-los de perto é frustrada, pois muitas coisas não previstas pelo idoso podem acontecer. É imprescindível estar consciente e preparado para a mudança de planos que a situação exige, sem se lamentar. O mais inteligente a fazer é aceitar a realidade que se apresenta, sem sentimento de revolta, adaptando-se da melhor maneira possível. Se os golpes da vida não forem assimilados com resiliência, a pessoa pode ficar amarga e rancorosa.

Como a família pode contribuir?

Integrando o idoso à família, não permitindo que ele se isole. Muitas vezes o idoso recusa convites feitos pelos filhos e se afasta a pretexto de não querer incomodar. Parentes e amigos enganam a si mesmos dizendo: ”Ele prefere ficar sozinho, não gosta de barulho”. A interação do idoso com seus familiares é muito importante.

Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje

Em qualquer fase da vida, a autora destaca o valor de realizar sonhos e projetos sem esperar pelo amanhã. Segundo Anabela, as pessoas tendem a adiar decisões importantes. “As justificativas mais parecem desculpas. Se forem jovens, dizem que não precisam se apressar. Se forem idosos, dizem que é tarde demais. Não postergue as viagens, o regime alimentar, as visitas, a reforma da casa, as caminhadas, aprender um novo idioma, o livro que pretende escrever, etc. Cuidado para não se ver dizendo: ‘Só depois que me aposentar’ ou ‘Agora não dá mais, já estou aposentado’”, alerta.

Editora Boa Nova

Preço _ R$ 8,70  na Saraiva

compacto da entrevista à Gazeta Online

Thereza Christina Pereira Jorge

Iniciamos com Viva com Beleza Envelhecimento Ativo há 10 anos. E estamos aprendendo a Arte de Envelhecer, e que Arte difícil! O site trata da descoberta do meu Envelhecimento Ativo. Consultoria em Envelhecimento Ativo [email protected] Meu nome é Thereza Christina Pereira Jorge, sou carioca, mãe de dois filhos, jornalista. Estudo há sete anos e Envelhecimento Ativo e escrevo sobre isso. Primeiro no blogue Viva com Beleza e agora no site Arte de Envelhecer. Fui repórter-editora nos jornais O Globo e sucursal Rio de O Estado de São Paulo. Trabalhei nas revistas femininas da Editora Bloch e na revista Isto É, também na sucursal. Sou formada em Ciências Sociais pela UFRJ. O site _ https://www.artedeenvelhecer.com.br _ é muito autobiográfico porque estou descobrindo e praticando o que a OMS definiu como Envelhecimento Ativo. Amo a vida e o viver. Tenho apreciado (às vezes) o meu envelhecer.

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