Um mal desnecessário

O artigo abaixo é de uma médica portuguesa, daí que pode parecer estranho ela usar a profissão da pessoa e o gênero para definir o perfil do candidato a diabete sem sintoma. Foi publicado no http://www.sabado.pt/.

 

Daniela Magalhães é médica no Centro de Inovação Médica (www.centroinovacaomedica.pt / [email protected])

O sr. engenheiro, passa os dias a trabalhar e não tem horas para chegar a casa. Há 15 dias, completou 50 anos e eu disse-lhe em jeito de provocação: “Devias fazer umas análises, é aos 50 que os problemas começam a surgir.” Ele lá ficou a pensar naquilo e na semana seguinte apareceu na consulta.

Não tinha quaisquer patologias prévias conhecidas, nem fazia medicação. Tem 85 kg e uma estatura de 1,74 m, com um índice de massa corporal (IMC) correspondente de 28 kg/m2. Apresentava tensões arteriais de 133/84 mmHg. Estava acima do peso. Nada de extraordinário. Pedi um painel de análises e foi com alguma ansiedade que me veio mostrar os resultados uma semana depois. Nas análises destacavam-se os valores da glicemia em jejum (do açúcar no sangue) de 118 mg/dL e de hemoglobina glicosilada (A1c) de 5,8%. Assim que me deparei com aqueles valores exclamei: “O sr. engenheiro está pré-diabético!”

Vamos de carro para o trabalho, passamos grande parte do tempo sentados à secretária, saímos tarde, exaustos. Ao fim do dia estamos esfomeados, porque não tivemos tempo de almoçar mais do que uma sandes feita de qualquer coisa. Chegamos a casa, cozinhamos um prato qualquer no microondas e sentamo-nos no sofá enquanto trocamos umas garfadas. Vemos as notícias, ou, então, acabamos aquele assunto pendente que não conseguimos resolver durante a tarde. Isto é o sedentarismo, um dos nossos piores inimigos. Aumentamos de peso, a massa muscular diminui e a massa gorda aumenta e assim cria-se o ambiente favorável ao aparecimento da chamada insulino-resistência. As células musculares tornam-se menos aptas para o consumo e a utilização de glicose, levando à sua acumulação na corrente sanguínea. Por sua vez, os níveis aumentados de açúcar, alteram a natureza das células tecidulares e vasculares, tornando-as rígidas e disfuncionais. Este é o primeiro passo para o desenvolvimento da Diabetes.

Todos os dias vemos ao espelho as rugas e os cabelos brancos. De facto, nenhum deles nos deixa esquecer que estamos a envelhecer. No entanto, o principal problema são as marcas internas do envelhecimento. Aquelas que ninguém vê, mas que começam a aparecer gradualmente a partir dos 20 anos de idade. Em 2014 a prevalência estimada de Diabetes na população portuguesa com idades compreendidas entre os 20 e os 79 anos foi de 13,1%, isto é, uma em cada 10 pessoas, neste grupo etário, tinha Diabetes (muitas delas não diagnosticadas)1.

São vários os tipos de Diabetes. A mais prevalecente, responsável por 90-95% dos casos, e também a mais prevenível, é a Diabetes mellitus tipo 2 (DM2)2. A maioria dos doentes com esta doença tem excesso de peso/obesidade e é sedentária. É frequente a DM2 permanecer por diagnosticar durante vários anos, uma vez que a hiperglicemia (excesso de açúcar) se desenvolve lenta e gradualmente. Nos estádios iniciais, não tende a ser grave o suficiente para causar os sintomas típicos da Diabetes, como a sede excessiva (polidipsia), o aumento da frequência urinária (poliúria), a fome constante (polifagia) e a perda de peso. Por este motivo, passa muitas vezes despercebida.

A Diabetes não só acelera o processo de envelhecimento normal como causa danos nos pequenos e nos grandes vasos. Afecta a visão, constituindo a principal causa de cegueira em adultos entre 20-74 anos!2 Causa lesão renal em 20-40% dos doentes, constituindo a principal causa de doença renal crónica terminal.2 Condiciona disrupção da sensibilidade táctil, térmica e vibratória, levando ao aparecimento de sensações desagradáveis como dor, ardor ou formigueiros. Aumenta o risco de enfarte agudo do miocárdio e de acidente vascular cerebral (AVC), constitui a principal causa de amputação não traumática dos membros inferiores e é uma causa importante de disfunção eréctil.

É crucial o diagnóstico precoce para que se possa actuar na modificação do estilo de vida e atrasar a progressão da doença e das suas complicações. É fundamental que se aplique o velho ditado: “Não deixe para manhã o que pode fazer hoje.”

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1. Relatório Anual do Observatório Nacional da Diabetes – Edição de 2015
2. American Diabetes Association. Standards of Medical Care in Diabetes – 2016. Diabetes Care 2016;39 (Suppl. 1):S1–S108.

Thereza Christina Pereira Jorge

Iniciamos com Viva com Beleza Envelhecimento Ativo há 10 anos. E estamos aprendendo a Arte de Envelhecer, e que Arte difícil! O site trata da descoberta do meu Envelhecimento Ativo. Consultoria em Envelhecimento Ativo [email protected] Meu nome é Thereza Christina Pereira Jorge, sou carioca, mãe de dois filhos, jornalista. Estudo há sete anos e Envelhecimento Ativo e escrevo sobre isso. Primeiro no blogue Viva com Beleza e agora no site Arte de Envelhecer. Fui repórter-editora nos jornais O Globo e sucursal Rio de O Estado de São Paulo. Trabalhei nas revistas femininas da Editora Bloch e na revista Isto É, também na sucursal. Sou formada em Ciências Sociais pela UFRJ. O site _ https://www.artedeenvelhecer.com.br _ é muito autobiográfico porque estou descobrindo e praticando o que a OMS definiu como Envelhecimento Ativo. Amo a vida e o viver. Tenho apreciado (às vezes) o meu envelhecer.

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