O título do novo livro de Fabrício Carpinejar não poderia ser um recado mais claro: “Cuide dos Pais Antes que Seja Tarde” (Bertrand Brasil). Mas o livro é mais do que isso. Trata-se, nas palavras do próprio escritor, de uma “canção de ninar aos pais”, um “pedido de desculpas” de um filho adulto tentando ser “o filho possível”.
Em forma de pequenas reflexões sem títulos ou divisão em capítulos, Carpinejar compõe uma grande narrativa sobre o envelhecer em família. Um relato sincero de um filho que percebe a finitude dos pais e o privilégio da convivência com eles.
Confira a seguir os principais trechos da conversa com Donna, entrecortada por risadas e alguns momentos de nó na garganta.
Em diversos momentos do livro, você parece estupefato ao perceber que a velhice chegou para os seus pais. Quando percebeu que esse livro estava surgindo em ti?
Foi quando eu deixei de ser filho para ser mais irmão e mais pai dos pais. Quando deixei aquele papel de suplicante, aquele que sempre vai pedir algum favor. Mas isso aconteceu em um movimento interior secreto, se formando em mim à revelia da consciência. Assim que a gente rompe com a birra da infância, os pais passam a pedir a nossa opinião, o nosso aconselhamento. Isso causa uma estranheza. Como assim, o pai te perguntar o que tu achas de ele fazer tal coisa? Talvez a paternidade também tenha mudado o meu olhar (Carpinejar tem um filha e um filho, de 24 e 16 anos). Quando os nossos pais se tornam avós, ganhamos um distanciamento deles. Meus filhos passam a criar uma outra identidade dos avós deles que é muito diferente da minha. Aí, ou os meus filhos estão loucos ou eu estou louco! Então, percebo que o errado sou eu. Cobro tanto dos meus pais, exijo tanto, tudo é tão imperfeito… Quando a gente vê os avós tomando conta dos netos, percebe que os pais têm urgências, já os avós têm doçura.
Você escreve também sobre o inverso, né? Sobre a forma como os netos tratam os avós…
Sim. O que é determinante para a boa educação dos filhos não são os pais, mas a presença dos avós na vida dos netos. Pela lentidão, pelo ritmo, pelo respeito ao saber mais prolongado. Os avós quebram a funcionalidade da tutela. E isso faz com que os netos tenham maior respeito, mais educação. Tanto é que pessoas educadas pelos avós são educadíssimas, respeitosas. Até o vocabulário é diferente.
Também porque há menos embates, né? A relação entre pais e filhos é mais conflituosa.
Claro. Eu sempre tive uma educação muito racional, de ideias, de debates, de disputa. Venho de uma família de juristas. Sempre gostaram de discutir, de argumentar. Aí, vi o que havia de vidro, de frágil, e fui notando que não adiantava mais eu ter razão. O que adianta é estar presente. Hoje, visito meus pais nem que seja por 20 minutinhos. Tu me perguntaste antes sobre arrebatamento. É algo meio bobo, cheio de graça. Vejo meus pais toda semana, converso com eles toda semana. De repente, eu passei 10 dias longe e, quando eu fui vê-los, eles tinham envelhecido tanto… Não sei se era porque eu estava acostumado com eles e perdoava o vício do tempo, ou se eles de fato envelheceram rapidamente em uma semana, sabe? O andar, a dificuldade, o ter de se apoiar, suspirar para falar. Ali, naquela fragilidade, me acendeu uma necessidade: “Nossa preciso falar disso”. De como isso estava me afetando e me mudando.
Faz parte desse processo a desistência de mudar os pais? De privilegiar a convivência com eles da forma como são?
A gente quer ser juiz dos pais. Quem é inteligente costuma ser orgulhoso, costuma ser teimoso. Quer mudar, retificar, corrigir os pais. Nada mais triste do que um filho corrigir o pai em público. A vergonha dos pais é para ficar na adolescência, porque ali a gente está desafiando, aprendendo a ser irônico, sarcástico. A gente aprende a se defender dos pais como uma forma de se defender do mundo. Mas há filhos que permanecem na adolescência ao longo de toda a vida. Hábitos irreversíveis de uma pessoa, depois de um tempo, se tornam detalhes preciosos da personalidade delas. Meu pai, por exemplo, já estourou centenas de canetas tinteiro nos bolsos das camisas. Pensa que ele deixou de usar as canetas? Nunca! Ele fica com aqueles balaços de tinta no peito (risos)!
Você já se percebeu se transformando nos seus pais?
Nossa, o tempo todo. Do meu pai, eu tenho a risada. E eu gemo na hora de comer. Eu achava horrível! Na hora em que ele comia uma moqueca de camarão, eu dizia: “Pai, que coisa feia”. Essa paixão por canetas, também herdei dele. Da mãe, tenho a ansiedade. O que faz de mim um ótimo faxineiro. Tenho que tirar os pratos das visitas enquanto elas ainda estão comendo e saio de cena para lavar tudo (risos).
O envelhecimento da população é um fenômeno novo no Brasil. Pela primeira vez, nós testemunhamos, por exemplo, pessoas idosas tomando conta de pessoas ainda mais idosas. Surge quase uma quarta geração. Tu percebes alguma especificidade do brasileiro nesse curso?
Acredito que a gente tem uma culpa maior. Aqui a gente sabe que o ideal é ficar com os pais, tomar conta. A gente sofre quando não faz o ideal. Em outros países, não. São mais frios. Deixa o pai no asilo e pronto. Diante disso, o que a gente pode fazer é planejar melhor. Minha grande preocupação com o livro é: por que a gente não organiza a velhice dos pais? Por que a gente trata a velhice dos nossos familiares como se fosse uma fatalidade ou uma maldição? Algo que surgiu de repente, sempre de improviso. Por que não organizamos: ele vai ficar com a gente tal, vai ter o quarto tal? Se isso não acontece, há uma partilha dos pais como se fossem um imóvel. Em vida. Eles são coisificados.
Isso demanda dos adultos admitir que os pais não estão mais lá para tomar conta deles. E só depois que eles terão de ser cuidados…
Sim, nós os temos como eternos fiadores. O fim dos pais talvez seja a maior responsabilidade dos filhos, mais do que criar os próprios filhos. Tomar conta de quem um dia tomou conta. Puxar na rua com cuidado, pela mão, quem te puxava com cuidado quando tu eras criança. Há uma dificuldade de alcançar essa generosidade de devolver a eles aquilo que a gente recebeu na infância e na adolescência. Ou que não recebeu. A velhice é também a oportunidade de dar uma segunda chance aos pais que foram ausentes. Muitas pessoas pensam que se os pais não foram legais, elas não têm nenhum encargo com a velhice deles. Tratam a questão como uma espécie de castigo, de vingança, sendo que isso só traz amargura.
Lidar com os pais na velhice também é lidar com as frustrações deles. Com pessoas que nem sempre conquistaram tudo o que quiseram na vida. Como lidar com isso?
Nem sempre se admira os pais pelo que eles se tornaram socialmente, mas a gente pode admirá-los pela sinceridade deles. Suas vacilações, seus erros. A sinceridade repõe a admiração.
Os pais serem puros conosco é tudo o que a gente precisa. A gente pode demonstrar reverência sem grandes atitudes. Eu sei da admiração do meu irmão Miguel pela mãe, por exemplo, porque um dia pedi onde ficava a faca de manteiga na cozinha dele, em Faxinal do Soturno, e descobri uma homenagem. Ele reproduziu as mesmas gavetas da casa da mãe! A terceira gaveta é a dos panos de prato. A quarta é aquela que a gente encontra de tudo, sabe? Moedor de nozes, essas coisas todas que tu nem lembras que tens em casa. A gaveta dos mistérios. Isso é incrível! Eu acho que é uma grande homenagem. E talvez nem ele nem ela saibam disso.
Teus pais leram o livro? O que acharam?
Meu pai ficou enciumado porque eu falei mais da minha mãe. Minha mãe decerto não ficou, porque não falou nada (risos). Ambos acharam triste. É triste, né? É melancólico, mas é necessário. Talvez seja um dos meus livros mais tristes, porque é um filho adulto pedindo desculpa. É um filho tentando ser o filho possível, nem é ser o melhor. É uma canção de ninar para os meus pais. Eu choro só de lembrar dele, às vezes.
E tem como ser diferente? Ser menos triste?
É um pensamento recorrente. É inevitável. Vai acontecer com todo mundo, mas a gente só conhece os pais quando é adulto. Agora tem algo novo e bacana que nos ajuda: essa inclusão digital da terceira idade. Minha mãe enlouquece sem WhatsApp. Já o pai está se habituando com a câmera do celular.
Às vezes, eu converso com a testa dele, às vezes com os pés, mas tudo bem (risos). Sabe o que mais? É na velhice que a gente consegue resgatar a infância e a adolescência dos pais. Tem filho que nunca teve paciência de ver as fotos dos pais crianças. Não sabe se eles faziam pandorga. Se tinham cachorro… Qual era o nome do cachorro? O que queriam ser quando crescessem? Nesse assunto da convivência com os pais, toda cautela é para que o que não foi vivido não se torne maior do que o que se viveu. Evitar que um dia você saia de um enterro e fique fazendo perguntas e respostas sozinho. A não existência devora as poucas lembranças.
TRECHO DO LIVRO
“Chega uma fase em que visualizamos o tempo que nos falta. Percebemos menos vida pela frente do que a vida que já experimentamos. É quando avistamos, ao longe do oceano, um limite, uma ilha, um desembarque. Raciocinamos que faltam dez ou quinze anos para permanecer ainda, palpável e físico, entre quem amamos. Realizamos um prognóstico amigável com a nossa faixa etária. É um palpite, mas dói como profecia. Temos dimensão da longevidade de nossas ações. O medo se mistura à serenidade, até que estar pronto para partir convirja com os familiares estarem prontos para se despedir.
Minha mãe, com 77 anos, experimentou esse fluvial vislumbre. Pediu ao meu irmão Rodrigo um pé de nozes no seu aniversário, coisa de quem nasceu no interior e jamais se cura das plantas e da horta.
Só que o jardineiro alertou ao Rodrigo que a árvore demoraria dez anos para frutificar.
Dez anos?, pensou a mãe com perplexidade. E respondeu para si que achava que não estaria mais viva, que não valeria a pena enraizar a nogueira.
Mas logo insistiu na encomenda.
Os filhos aceitaram o engano, naquela covardia de contrariar a esperança de alguém. Não dá para contestar a esperança do outro, é muito pessoal e cultivada no mar mais profundo.
A mãe chamou a família para deitar a muda no jardim, com direito a pá e discurso. Enquanto ela mexia na terra, ríamos de sua vivacidade.
Depois que terminou, ficou admirando o invisível das folhas. Lembrava uma menina vigiando o pé de feijão no algodão da escola, no pote de margarina da infância.
Daí ela disse:
– Não plantei para mim, plantei para os meus netos.
Nem tudo na vida precisa ser visto para ser amado.”
Caue Fonseca
revista donna online

“Cuide dos Pais Antes que Seja Tarde”
112 páginas, R$ 29,90
Editora Bertrand Brasil

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Sobre mim

Meu nome é Thereza Christina Pereira Jorge, sou carioca, mãe de dois filhos, jornalista. Fui repórter-editora nos jornais O Globo e sucursal Rio de O Estado de São Paulo. Trabalhei nas revistas femininas da Editora Bloch e na revista Isto É, também na sucursal. Sou formada em Ciências Sociais pela UFRJ. Este blog é muito biográfico porque estou descobrindo e praticando o que a OMS definiu como Envelhecimento Ativo. Amo a vida e o viver.




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