As cidades gaúchas que não tiveram casos de Covid-19 (ainda)

Municípios como Putinga, localizado no Vale do Taquari, apostam em um controle rigoroso desde março

Municípios como Putinga, localizado no Vale do Taquari, apostaram em um controle rigoroso desde março

Pelo levantamento da pasta, até o fechamento desta edição apenas 30 municípios gaúchos ainda não haviam tido registros de pessoas com a doença. Isso significa 6% das 497 cidades. No auge da contaminação pelo vírus, o Jornal Cidades foi conhecer a realidade de três comunidades para saber: afinal, por que a doença que assombra o mundo não chegou até lá?

Entre Aceguá, Rolador e Putinga, há semelhanças. São cidades com população pequena, com poucos recursos na área da saúde e com uma predominância de idosos, listados no grupo de risco. No entanto, cada uma adotou uma estratégia própria para evitar que a pandemia se instale no território e atinja a comunidade. O município de Aceguá, que fica no sul do Estado, tem na parceria com sua homônima uruguaia uma das principais armas para chegar ao número zero de casos de Covid-19. O trânsito de pessoas na fronteira seca é grande diariamente, seja de pessoas do Uruguai, que chegam à cidade para trabalhar ou fazer compras, seja de brasileiros, que vão ao outro lado para as residências, visitar amigos ou buscar oportunidades.

Com população de 4,9 mil pessoas, a brasileira Aceguá adotou, desde março, protocolos para monitorar pessoas com síndrome gripal. As primeiras medidas envolveram afastar pessoas do grupo de risco, como idosos e pessoas com doenças crônicas. Pessoas com sintomas eram indicadas a fazer um período de quarentena por 14 dias. Durante o período, ela era testada para saber se havia contraído a Covid-19. Desde então, foram feitos 226 testes (o que significa que uma em cada 21 pessoas da cidade fizeram os exames), sem nenhum caso positivo.

O prefeito de Aceguá, Gerhard Martens, médico e cirurgião vascular, saudou a parceria com os uruguaios, que envolveu até o envio de lotes da vacina contra a Influenza para a cidade. Foram 400 doses mandadas pelo governo do Uruguai. “Fizemos um monitoramento permanente na cidade e, acredito que por isso, chegamos até aqui sem casos”, disse o prefeito.

Idosos, que são do grupo de risco, são dois terços dos habitantes da cidade

 

A enfermeira chefe da Unidade Básica de Saúde (UBS) de Rolador, Cristiane Nunes Mayer, conta que desde março é feita uma busca ativa por pessoas que saíram da cidade e/ou tiveram contato com moradores de outras cidades. Foi criado um protocolo de quarentena para quem chega de fora. Conforme o boletim epidemiológico mais recente da secretaria de saúde, foram realizados 32 testes rápidos (média de um em cada 71 habitantes), sem resultados positivos.

Cristiane salienta que, em 2020, percebeu uma queda acentuada no número de pacientes com síndromes gripais no posto em relação aos anos anteriores. Para ela, o uso de máscaras e o isolamento social contribuíram para esse quadro. “A circulação de pessoas reduziu. Além disso, com as máscaras, torna-se mais difícil o contágio por causa da proteção. Começamos cedo com a obrigatoriedade, já em março. Outro fator que contribui é a suspensão das aulas, pois as crianças acabam sendo vetores”, explica.

A enfermeira reitera que os agentes de saúde percorrem as casas com instruções aos moradores para a prevenção. Dentre elas, estão a recomendação de não fazer viagens e evitar o deslocamento até Cerro Largo e São Luiz Gonzaga, cidades próximas de Rolador. “Temos uma realidade de município pequeno, é mais fácil controlarmos a população e isolarmos suspeitos”, afirma.

Putinga tem um hospital para atender casos de pequena e média complexidade, o Doutor Óscar Benévolo. Nele, foram criados dois leitos exclusivos para pacientes infectados pelo coronavírus, mas os leitos ainda não foram utilizados. A cidade recebeu também um respirador. Casos mais graves são levados para tratamento em outras localidades.

Para o médico da instituição, Paulo Lima, que integra o comitê de controle à doença, é improvável que Putinga não registre ao menos um caso, em razão da alta circulação do vírus. O objetivo, segundo ele, é controlar os danos. “Temos uma estrutura para casos menos complexos. Queremos evitar, se a doença chegar aqui, que precisemos de internações em UTI e minimizar o dano à população”, afirma.

Paulo ressalta que o número zero de casos não pode se refletir em relaxamento das medidas já consagradas, como higienização constante, uso do álcool em gel, isolamento e distanciamento social por parte da população. “Queremos terminar a pandemia zerados, mas, para isso, dependemos da comunidade”, enfatizou.

Jornal do Commercio

Final feliz de Emília, 70 anos. Ela voltou para casa

A sexta-feira (31) foi especial na Casa da Acolhida para a Terceira Idade (CATI). Depois de mais de dois anos e meio residindo no abrigo, Emília Martins Barbosa, de 70 anos, finalmente voltou para sua casa, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Ela recebeu amparo da Prefeitura de Nova Iguaçu após ser vítima de um golpe que a impossibilitou de gerenciar seus bens e até mesmo sua conta bancária.

Após decisão da Justiça, a idosa, que veio de Portugal para o Brasil ainda criança, pôde reaver seus direitos e decidiu retomar sua vida no apartamento onde morou ao lado da família. O local, inclusive, foi reformado com a ajuda dos funcionários do CATI. Para celebrar, Emília foi homenageada com uma festa surpresa, na quinta-feira.

“Fui muito bem acolhida durante todo o tempo que estive no CATI. Fiz amigos que vou levar no coração para o resto da vida. Foi uma experiência enriquecedora, pois aprendi muito com todos e agradeço por todo carinho”, disse, emocionada, a idosa.

Fundada em dezembro de 2015, a CATI recebe idosos em situação de vulnerabilidade social, abandono, vítimas de violência e que estejam sob medida protetiva encaminhados pelo Ministério Público ou diretamente por equipamentos da Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMAS), como o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e o Centro de Referência Especial para Pessoa em Situação de Rua (Centro Pop).

A casa conta com seis dormitórios, sendo três masculinos e três femininos, para 30 vagas permanentes e outras três de pernoite, quando o idoso fica apenas por um tempo determinado por estar em situação emergencial, sem residir no espaço. Há ainda quatro banheiros, uma despensa para armazenar alimentos, sala de estar, refeitório e Academia da Terceira Idade.

novaiguuacuonline.com

“A Rede Social salvou meu negócio”

O alfaiate Odiney Pedroso, que completa 90 anos neste sábado, trabalha há mais de 70 anos fazendo camisas personalizadas em uma pequena loja na Vila Romana, zona oeste de São Paulo. E não esperava passar por nada parecido com a crise provocada pela pandemia da covid-19. Em quatro meses, vendeu apenas seis camisas. Tentou um empréstimo bancário de R$ 1,8 mil para pagar as dívidas, mas, por causa da idade, não conseguiu.

“Esses quatro meses não foram fáceis. Eu tenho uma boa clientela, mas as pessoas não vinham, e meu serviço caiu bastante”, conta Pedroso.

A salvação do negócio veio de um ato inesperado: um vídeo gravado por Renato Dias, dono de um posto de gasolina próximo à alfaiataria e neto de um amigo de Pedroso. O vídeo, em que o alfaiate se emociona ao contar que nunca passou por tamanha dificuldade, foi compartilhado em rede social e, em três dias, já tinha mais de 49 mil visualizações.

Desde então, o alfaiate recebeu mais de 50 pedidos, e o neto teve de passar a ajudá-lo no atendimento. “O telefone do seu Pedroso não para de tocar”, conta Dias. “Eu não esperava isso na minha vida, fico até sem jeito”, agradece o alfaiate.

A história rendeu ainda uma vaquinha virtual, organizada por outro internauta que se comoveu com a história do alfaiate. O objetivo inicial era arrecadar os R$ 1,8 mil para quitar as dívidas. No final, porém, chegou a quase R$ 28 mil, com a ajuda de pelo menos 430 pessoas.

Não foi o primeiro caso de um pequeno negócio administrado há décadas por uma única pessoa salvo pelas redes sociais. A história de Nelson Simeão, de 83 anos, proprietário há mais de 50 anos do viveiro de plantas Jardins Modelo, na zona sul de São Paulo, é parecida.

Até março, costumava atender cerca de 15 clientes por dia, mas praticamente não recebeu nada durante os 70 dias em que teve de fechar as portas por conta da quarentena.

Quando pôde reabrir as portas, Simeão colocou uma placa em que pedia ajuda para sair da falência. Ao ver isso na loja, uma especialista em marketing postou uma foto em suas redes sociais, e resolveu ajudar a família a criar um perfil no Instagram para vendas. Pediu para um fotógrafo conhecido tirar fotos das plantas e do espaço, e criou uma conta para o viveiro.

As postagens também repercutiram pela rede, e o perfil recém-criado já conta com 77 mil seguidores. O atendimento presencial também aumentou: segundo Simeão, há dias em que chega a ter mais de 50 clientes, e a média desde o mês passado tem sido de 30 por dia. Foi preciso até demarcar o chão do lado de fora para organizar a fila, em respeito ao distanciamento social.“tive de pedir para meus quatro netos e minha nora virem me ajudar. Isso é uma prova de que o povo é solidário, e ajudou bastante.”

Compacto do Estadão Digital

 

População de idosos não é única explicacão para mais mortes

A idade é uma variável importante para entender a pandemia de covid-19, mas não pode ser analisada sozinha.

Para muitos pesquisadores do Instituto Max Planck de Pesquisa Demográfica, na Alemanha, entre eles a brasileira Marília Nepomuceno, “a faixa etária deve ser analisada juntamente com variáveis que contextualizam cada país, como por exemplo, condições de saúde, desigualdades socioeconômicas, acesso a serviços médicos, composição das famílias, condições sanitárias, o privilégio de seguir as medidas de prevenção e distanciamento social, dentre outras, “ explica a brasileira.

Por isso, ela diz que o escopo de análise da demografia vai além dos efeitos de variações na estrutura etária.

“Essa é uma visão muito reducionista da área de estudos populacionais, que deve se preocupar não apenas com variações dos eventos entre grupos de idade mas também em cada um deles, ao longo do tempo e entre gerações”, explica.

De fato, de acordo com Nepomuceno, as taxas de letalidade são maiores em idades mais elevadas. “Mas os autores publicaram um exercício simplista”, diz.

“Para isso, os demógrafos examinam inúmeras outras variáveis de interesse para a sociedade e que no caso da covid-19 podem ajudar a explicar as diferenças no número de casos e de mortes.”

Marília alerta que uma abordagem que considera apenas a estrutura etária populacional para entender um fenômeno tão complexo como a pandemia de covid-19 pode não ser suficiente para compreender todo o fenômeno”, diz.

“Fatores contextuais, e não apenas a idade, devem ser considerados para um bom entendimento da pandemia no Brasil.”

Isso porque vários fatores demográficos, sociais, econômicos e governamentais podem explicar as variações entre países. Para exemplificar isso, o grupo, que inclui pesquisadores brasileiros, do Canadá e da Alemanha, analisou diferenças entre as condições de saúde associadas a mortalidade por covid-19 no Brasil e Nigéria em relação à Itália.

“Constatamos que as altas prevalências de doenças crônicas entre os adultos brasileiros, por exemplo, podem aumentar a vulnerabilidade desta população, com potencial para compensar parte dos benefícios da idade mais jovem.”

“Os resultados publicados, já apontados anteriormente, fazem parte de uma discussão complexa, que envolve muitos fatores simultâneos e que precisarão ser analisados ao longo dos próximos anos, até que toda a dinâmica da doença seja conhecida.

Para Maríia Nepomuceno, “a Ciência levará muito tempo para compreender a dinâmica de riscos da covid-19”,  avalia.

Compacto de conteúdo BBC

Como nossos “pais”: os males do isolamento

Nosso comportamento em confinamento social não difere muito do de outros animais sociais quando colocados em cativeiro: estar isolado tem um efeito profundo na nossa saúde física e mental. Por isso a importância em encontrarmos maneiras de brincar, jogar e rir no cotidiano em quarentena.

Os ensinamentos são da cientista chilena Isabel Behncke, que de diferentes formas se dedica a estudar as raízes da natureza humana e de animais sociais. Ela estudou Biologia em Santiago, Zoologia em Londres e fez pós-graduações em conservação biológica e antropologia evolutiva, também no Reino Unido.

Para seu doutorado em primatologia na Universidade de Oxford, passou três anos na selva da República Democrática do Congo estudando os bonobos, que, ao lado de chimpanzés, são nossos parentes evolutivos vivos mais próximos. Na quarentena, ela se dedica a escrever um livro sobre a experiência.

Seus estudos nos ajudam a entender por que somos como somos – e os efeitos que a quarentena imposta pela pandemia exercem sobre nós, como indivíduos e como espécie. E por que sentimos tanta falta de atividades triviais, como almoçar com colegas de trabalho ou passear?

Uma questão relacionada ao nosso comportamento social.

“Somos primatas sociais e estarmos isolados tem um efeito profundo em nossa saúde física e mental. Quando observamos os animais enjaulados, sejam cetáceos (baleias e golfinhos), cavalos, elefantes, papagaios, primatas ou grandes predadores, o que vemos são os chamados comportamentos repetitivos, como se coçar até provocar lesões ou dar voltas nas jaulas”, explica.

“E talvez você se pergunte: como identifico o que é um comportamento repetitivo causado pelo estresse, versus movimentos que possam ter outras causas? Em geral não variam muito e não têm uma função.”

“Então, quando vejo como começamos a fazer scroll nas redes sociais, sem interagir, simplesmente de maneira passiva, repetitiva, o que observo são humanos em cativeiro. Não é muito diferente dos papagaios enjaulados, que começam a arrancar as (próprias) penas.”

A chilena explica que jogos, atividades e brincadeiras são um exercício antigo e universal praticado por seres imaturos (ou seja, as crias) de mamíferos e pássaros. Mas tem efeito crucial na população em geral, principalmente em tempos de quarentena – desde montar quebra-cabeças e dar risada até cozinhar algo por prazer são atividades que trazem grandes benefícios.

“Isso é muito importante para a saúde física e mental, para a resiliência e para a criatividade”, explica Behncke.

“Mas a brincadeira é uma conduta sensível ao medo. Quando aumenta o estresse, aumenta a resposta fisiológica, que por sua vez tende a diminuir e suprimir o jogo. Por isso, temos que prestar atenção à frequência com a qual estamos dando risada, se na pandemia podemos encontrar maneiras de rir todos os dias, falar por videochamada com alguém que te divirta, ler literatura, ver comédias.”

É preciso fazer o que for necessário, diz ela, “para manter a brincadeira na vida, sobretudo em tempos nos quais é mais difícil fazê-lo, por medo ou incerteza”.

“Mas há outro ponto. Diferentemente de outros animais, nós humanos desenvolvemos rituais sociais, como ir a shows, missa, sair para dançar ou a bares. Os rituais coletivos são muito importantes porque sincronizam os grupos: eu me movo contigo, rio contigo, canto contigo e forjo um laço contigo. Pense nos gritos (das torcidas) de futebol no estádio.” “Tudo isso está desaparecido com o vírus, e é um experimento impressionante. Não só não temos os rituais coletivos, como estamos vivendo um trauma coletivo. Por isso acho que vamos precisar voltar a restaurantes e pubs, ao estádio, a shows e a dançar nas festas.”

Compacto do conteúdo BBC Brasil

Sala de Aula: Costanza Pascolato ensina o Essencial hoje na Moda

Ela é considerada a mulher mais elegante do Brasil no exterior. Costanza Pascolato, 80 anos, coleciona feitos. É a mais completa traducão de Resiliência. Venceu o câncer duas vezes, o Idadismo, se aventurou em amores (foi casada com o compositor Nelson Mota) e agora foi contratada para uma consultoria importantíssima ($$$$$).  Fora o que é também exímia em informática. A jornalista Lilian Pacce é a autora desse delicioso bate-papo. Thereza Christina P Jorge

“A sensação é de que o mundo do Covid-19 teve que buscar novos caminhos, novos valores. Muita gente fala de retorno ao básico, ao essencial. É sobre isso que eu converso com a consultora de moda Costanza Pascolato, que do alto de seus 80 anos já viu muita coisa virar moda e muita moda passar.

Esse vídeo é resultado dos melhores momentos de uma live feita com o time da Shop2gether, uma plataforma de comércio digital fundada por Ana Isabel de Carvalho Pinto e da qual Costanza é consultora há sete anos. Se você gostar, compartilha com os amigos! Sim, faz os 3 Cs: curte, comenta e compartilha!” Lilian Pacce

 

Após a quarentena, como priorizar o envelhecimento ativo?


Na live da Iniciativa FIS sobre O Dilema do Retorno dos Idosos `vida social externa, após o confinamento, no início de julho, o diretor geral da Universidade da Terceira Idade da Uerj, geriatra e professor Renato Peixoto Veras afirmou que tem esperança de um salto da medicina brasileira após a vacina contra o Covid-19. “Veremos uma medicina mais humanizada, o fortalecimento do SUS e a difusão da telemedicina trazendo o Médico de Família para cada casa.”

Os debates sobre o papel do idoso no mundo pós-pandemia estão presentes em vários países. Em Portugal, por exemplo, especialistas do Social Inclusion Laboratory (SINCLab), da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, alertaram  para a necessidade de se retomarem, à medida que são levantadas as medidas de confinamento, os projetos que promovem o envelhecimento ativo.

sociedade tem a responsabilidade de, tendo excluído o idoso sob a égide do resguardo e da proteção, preparar a saída do confinamento e repensar o enquadramento a dar a esta população”, lê-se no comunicado enviado pelo SINCLab.

“Em alguns locais do país, temos cerca de 35 a 40% da população com mais de 65 anos e para as quais têm de existir respostas sociais que não sejam apenas assistenciais, uma vez que se trata de uma população que cada vez tem mais condições de saúde e que precisa de envelhecimento ativo, ou seja, de respostas que vão para lá daquilo que nesta altura tanto se fala”, defendeu Rui Serôdio.

Para os coordenadores do laboratório da Universidade do Porto, que trabalha com os 17 municípios da Área Metropolitana do Porto (AMP) em prol do envelhecimento ativo, “a identidade do sénior não pode ser posta em causa por decreto”.

“Todos os dias, a população idosa recebe uma mensagem terrível de quase morte anunciada e é preciso pensar nisso e trabalhar essa imagem”, defenderam.

Para Alexandra Serra, as respostas sociais “de caráter imediato” que surgiram no âmbito da pandemia da covid-19 podem vir a ser “aprendizagens para o futuro”, mas considera que é necessária a intervenção política e do poder local nesta matéria.

“Estas questões do envelhecimento ativo passam por uma forte intervenção e envolvimento das comunidades na vida das pessoas, por isso, era muito bom que destas respostas que surgiram para proteger esta população, gerassem alguns frutos e a possibilidade de continuidade no futuro, mas estas respostas têm de ter um enquadramento em termos políticos e do poder local”, salientou a responsável.

Acrescentando que é necessária uma mudança de “enfoque”, passando da resposta sanitária e assistencial para “algo mais ambicioso que vê o idoso como uma pessoa com direitos, obrigações e oportunidades para ter uma participação plena e ativa na sociedade”.

Também Rui Serôdio considerou que é fundamental, neste momento, “pensar-se no depois”, ou seja, tornar a mudar o “ênfase para as questões de cidadania e direitos desta população”.

Face às eventuais medidas de proteção e segurança que podem vir a ser aplicadas a esta população, os especialistas acreditam que as respostas promotoras do envelhecimento ativopodem vir a ser executadas “de forma mais particular”.

“Podemos vir a ter respostas não tanto em grandes grupos, como até agora víamos, mas de forma mais particular, mas que continuem a estimular estas pessoas. Isso seria muito interessante pois obriga, uma vez mais, a reformular os nossos paradigmas junto desta população”, concluíram.

Fim do isolamento: Vamos aprender a viver em “bolhas”?

Ninguém aguenta mais a quarentena imposta pela pandemia de coronavírus. Quem pode fazer isolamento social já está há quase quatro meses praticamente olhando para as paredes. Para enfrentar essa maratona que não tem fita de chegada à vista, muita gente está flexibilizando seu confinamento e encontrando outras pessoas que também estão isoladas. Cada um na sua bolha, mas em contato para não “surtar”. A razão disso é o peso mental do isolamento. Quanto mais rigorosa a quarentena, maior o custo para o bem-estar psicológico, dizem os especialistas. A psicóloga Mary Yoko Okamoto, professora de pós-graduação na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e uma das responsáveis pelo programa de teleacolhimento dos calouros, diz que insegurança, incerteza e medo do futuro são os sentimentos mais comuns deste período. 

Como montar sua bolha

Essas soluções individuais não são invenção nossa. Foi lá fora que surgiram os termos “bolhas” e “microbolhas sociais”. Quando começou a retomar a vida social após um enfrentamento bem-sucedido da pandemia, a Nova Zelândia recomendou que as pessoas continuassem dentro da bolha de suas casas, mas que começassem a expandi-la para se reconectar com a vida lá fora. Na Inglaterra, o governo britânico recomendou que as bolhas sociais, geralmente familiares, fizessem combinações com dois ou três outros grupos.

O psicanalista Christian Dunker afirma que nossa capacidade de suportar privações é finita. “Não somos de aço inoxidável ou de elástico. Nós estamos pagando um preço psíquico pelo isolamento. O contato com o outro representa o nosso reconhecimento. Dependemos do outro para entender melhor o que sentimos”, explica o professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Ampliar a bolha individual aumenta o contato social, contribui com o equilíbrio emocional e tenta minimizar o risco de transmissão da doença. Se ocorrer uma infecção, ela permanece na bolha e não será transmitida a outras pessoas. Pode ser uma saída temporária à espera da vacina ou de um remédio eficaz contra a covid-19

Não dá para comparar a situação da Nova Zelândia e do Reino Unido com a do Brasil, mas a ideia é a mesma. A decisão de encontrar alguém pessoalmente é delicada, pois a pandemia ainda não acabou por aqui. A retomada de atividades não essenciais em várias cidades, como a abertura de shoppings e academias, por exemplo, traz uma sensação de fim da pandemia. É falsa. Não acabou. 

Existem situações mais complexas para criar bolhas, além dos laços familiares, como amigos que dividem o apartamento, por exemplo. Como controlar que todos se protejam na mesma medida se os laços não são tão fortes? 

Cuidados têm de ser respeitados, alertam especialistas

Embora reconheçam o desgaste emocional causado pela quarentena, epidemiologistas e infectologistas se dividem sobre a eficácia das medidas de prevenção nos encontros presenciais. Alguns se mostram céticos quanto à ausência de beijos e abraços. Outros alertam para a possibilidade de contaminação pelo ar. Todos destacam a necessidade de disciplina para que as bolhas minimizem o risco de contágio.Desde que exista disciplina, com cuidados antes e durante o encontro, não há problema, opina a infectologista Rosana Richtmann. “É prática que, com segurança, pode garantir que as pessoas tenham algum tipo de vida social”, diz a médica do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e do Grupo Santa Joana.

“Do ponto de vista psicológico, é compreensível que as pessoas comecem a fazer as próprias recomendações. Nós convivemos com o medo, da morte e da doença, por muito tempo e em isolamento. E os riscos vão existir sempre”, afirma a infectologista Sylvia Lemos Hinrichsen, consultora de Biossegurança e Controle de Riscos da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Para minimizar esses riscos, Márcio Bittencourt, mestre em Saúde Pública e médico do Hospital Universitário da USP, recomenda o uso de máscaras, além da higienização das mãos. Também é necessário, completa o especialista, evitar lugares fechados, o contato prolongado e as aglomerações. O médico e professor Jean Gorinchteyn, também do Emílio Ribas, mostra ceticismo quanto à adoção das medidas. “As pessoas não vão se encontrar ao ar livre. Em geral são jantares ou almoços. Numa mesa, ninguém vai manter 2 metros de distância. Além disso, elas vão retirar as máscaras para comer. Esse é um cenário de risco”, adverte o infectologista.

Paulo Eduardo Brandão, virologista da Faculdade de Veterinária da USP, adiciona outro alerta: a possibilidade de transmissão do novo coronavírus pelo ar. Na semana passada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um informe científico em que passa a considerar o fato. “O vírus precisa de pessoas perto de pessoas, mas ele também se transmite pelo ar. Esse é um risco que mina a hipótese de segurança em um parque ou praia”, exemplifica. (Compacto do Estadão Digital). 

O que era “normal” passou a ser considerado crime

Uma ressalva importante: apesar do Estatuto do Idoso ser conhecido apenas por 35% do seu público potencial, estamos mais conscientes em relacão aos crimes contra os mais velhos.
Ontem, divulgamos que em 2019 o Disque Direitos Humanos registrou 48,4 mil denúncias de violações contra idosos.
Eis a ressalva: às vezes, a divulgação de números sobre a violência contra idosos parece mostrar um aumento de atos violentos. Na verdade, pode ser, ao contrário, o registro da mudança de mentalidade da sociedade.
Thereza Christina Pereira Jorge