A Voz da Sobrevivente

março 10, 2016 0 Por Thereza Christina Pereira Jorge

Nascida numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, próximo ao encontro do Rio das Velhas com o Rio São Francisco, Thaís de Azevedo não podia imaginar que viajaria o mundo fazendo trabalho voluntário, se formaria como técnica de enfermagem e falaria quatro línguas. 

Durante a juventude, trabalhou como vendedora em um shopping da cidade de São Paulo. Quando as colegas de profissão descobriram que Thaís era travesti, fizeram um abaixo-assinado para que ela fosse demitida. 

Hoje, aos 66 anos, ela conta sua história com orgulho. Ainda que, para se sustentar e bancar os estudos, tenha enfrentado o mundo da prostituição em alguns momentos da vida. 

“Eu sou uma pessoa que não é nem uma mulher, nem um homem”, relata durante a entrevista para a VICE. O que pode dar um nó na cabeça de muita gente, é simples para Thaís, que atualmente trabalha como educadora socioeducativa do CRD (Centro de Referência da Diversidade), no centro de São Paulo. 

“A travesti é uma performance na cabeça das pessoas. Não há nada de estranho comigo. A única coisa estranha que há é o olhar ignorante das pessoas.”  

A expectativa de vida do brasileiro é de 75,2 anos de acordo com dados divulgados pelo IBGE em 2014. Já Pedro Sammarco, doutor em psicologia social e mestre em gerontologia pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), estima que expectativa de vida das travestis é de 35 anos. 

Esses números remetem ao estilo de vida marginalizado de boa parte delas. “Elas acabam indo para a marginalidade porque o sistema não as acolhe”, ele justifica.  

Para Thaís, a infância é o grande divisor de águas na vida de qualquer pessoa LGBT. “As travestis da minha geração tiveram muita dificuldade de acesso ao que quer que seja. 

São pessoas que, na tenra infância, foram relegadas à obscuridade, à inexistência. Ninguém quer dar vida e permitir vida à pessoas Ninguém quer dar vida e permitir vida à pessoas que não sejam heterossexuais.” 

Thaís, que viveu na Itália, na Alemanha e na França, trabalhou como voluntária para uma ONG que cuidava de pessoas com HIV em estado terminal. Para bancar os cursos que fez, como o de moda, teve de recorrer ao próprio corpo. “Eu me prostituía e pagava os meus estudos. Sempre estudando e lendo muito. Mas acho muito lamentável a pessoa se prostituir. Acho muito doloroso”, pondera. 

“Quem é travesti na velhice é uma verdadeira sobrevivente”, diz o psicólogo social Pedro Sammarco. Para o psicólogo social, que assume ter sentido preconceito pelas travestis até o momento em que passou a estudá-las e entrevistá-las, “quem é travesti na velhice é uma verdadeira sobrevivente”.  
Thaís, que se diz reencarnacionista, adora Nietzsche (“já li Assim falou Zaratustra até em francês pra ver se ficava mais fácil, mas ficou mais difícil”), ouve ópera (sua preferida é, óbvio, Thaïs, de Jules Massenet) e em breve irá completar 67 anos, diz não ter medo do que um dia virá. 

“Envelhecer é o prenúncio de um descanso, de um final. Não tenho mais medo de morrer. Tenho até uma certa curiosidade.” 

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