Google: use com moderação

junho 8, 2016 0 Por Thereza Christina Pereira Jorge

Pense rápido: qual o número de telefone da casa em que morou quando era criança? E o celular do colega de trabalho que chegou à empresa há cerca de seis meses? Provavelmente, foi mais fácil responder a primeira pergunta do que a segunda – mas antes que você comece a questionar a sua memória, é importante dizer: você não está sozinho. 
Estudos científicos chamam esse fenômeno de ‘efeito Google’ ou ‘amnésia digital’, um sintoma de um comportamento cada vez mais comum: o de confiar o armazenamento de dados importantes aos nossos dispositivos e à internet no lugar de guardá-las na cabeça.
A ideia é simples: se você não tem de lembrar de cor todos os números de telefone de todos os seus contatos, uma vez que eles estão no seu smartphone, pode ocupar sua memória com informações mais importantes ou úteis. “É parecido com o diretor que delega para sua secretária a tarefa de lembrar seus compromissos, ou com usar uma agenda de telefones para registrá-los”, explica o neurologista Paulo Bertolucci, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 
Utilizar um recurso externo para não precisar lembrar de algo não é exatamente novo – vale lembrar das aulas de história, em que o aparecimento da escrita é considerado um dos grandes marcos da evolução da humanidade. No entanto, quando informações importantes são confiadas ao mundo digital, há uma diferença na maneira como esses dados são acessados. 
“Para achar um dado em um livro, preciso saber qual é o livro e lê-lo até achar o que preciso. É um grande trabalho: por isso, muitas vezes retemos esses dados conosco para não ter de encontrá-los outra vez”, diz o pesquisador Adrian F. Ward, da Universidade de Austin, nos Estados Unidos. 
Na internet, porém, basta um clique para vasculhar um sem-número de informações: segundo Ward, o acesso rápido e a quantidade de textos faz com que o cérebro humano não considere útil gravar esses dados, uma vez que é fácil encontrá-los de novo rapidamente. “São dados que ficam apenas na nossa memória de trabalho, que é rapidamente descartada”, explica Bertolucci, da Unifesp. “É como quando consultamos o telefone de uma loja: após discar e fazer a ligação, não precisamos mais dele.” 
Segundo Claudio Martinelli, diretor da Kaspersky, o efeito Google também tem lados positivos, como o fato de que não precisar lembrar de todos os detalhes na hora de resolver um problema pode liberar a criatividade para encontrar a solução.
“As informações estão todas a um clique, de forma que o cérebro pode fluir livremente”, diz ele, baseado em uma pesquisa realizada pela consultoria em 2015, com profissionais de negócios de 13 países: 46% dos entrevistados acreditavam que se tornavam menos criativos à medida que tinham de se lembrar de mais detalhes.
Compacto do Estadão