Isolamento, monotonia e o estresse estão destruindo a noção de tempo

março 14, 2021 0 Por Thereza Christina Pereira Jorge

Você não está sozinho se acha que 2020, talvez o ano mais dramático e memorável de nossas vidas parece embaralhado e desordenado, como um borrão gigante

Para a poetisa Kate Baer, de Harrisburg, na Pensilvânia, o tempo parece estar distorcido em 2020. Ela comparou este ano a um episódio em que ela e quatro amigos fugiram para uma cabana de madeira em Maryland e experimentaram maconha comestível. “O tempo parou. É a mesma sensação que tenho nesta pandemia. Algo fluido e muito confuso”, disse Baer, de 35 anos.

O analista de tecnologia Avi Bonnerjee, de 34 anos, do Brooklyn, na cidade de Nova York, afirmou que 2020 o faz pensar “na sensação de estar suspenso no tempo” quando está em Los Angeles. “Em Nova York, cada estação do ano tem características distintas; há uma sensação de progressão contínua. Em Los Angeles, o clima é sempre quente, e é como se estivéssemos em uma espécie de purgatório”.

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ontem, hoje, amanhã

Para a diretora criativa de moda Dulci Edge, de 34 anos, que vive em São Francisco, 2020 faz com que ela se lembre de uma velha máxima familiar. “Os dias são longos, mas os anos são curtos”. Mas, no caso da pandemia, “os dias são longos, e o ano também é comprido”, comentou.

Você também tem a impressão de que não existem mais fronteiras no tempo, de que os dias parecem se transformar em semanas ou de que janeiro já passou há tanto tempo que parece que foi em 2017? Você não está sozinho se sente que 2020, talvez o ano mais dramático e memorável de nossa vida, parece estar embaralhado e desordenado, como um enorme borrão.

Um sonho, ou talvez um pesadelo. Este é o paradoxo de 2020, ou um deles: um ano tão importante no qual, de certa forma, temos a impressão de que nada aconteceu. Isso não é uma ilusão completa. Sem as reuniões com o pessoal do trabalho, as festas de fim de ano, as viagens longas ou os jantares casuais que geralmente marcam e dividem o calendário, o cérebro tem mais dificuldade para processar o tempo e catalogar as memórias, de acordo com os psicólogos, e o estresse do ano pode, por si só, alterar como nosso cérebro processa o tempo.

Em que mês Kobe Bryant morreu? Foi neste ano que o príncipe Harry e a esposa, Meghan, abdicaram de seus títulos? Não havia uma história sobre vespas assassinas, ou isso foi em 2018? Somos incapazes de nos lembrar deste ano terrível ou simplesmente não queremos?

Para algumas pessoas que se recuperaram da covid-19, existe uma explicação médica para a sensação de confusão mental: a névoa cerebral da covid, uma combinação persistente de sintomas semelhantes à demência, incluindo perda de memória, confusão e dificuldade de concentração. Mas e todas as outras pessoas? Para muitas, este ano foi uma mistura estranhíssima de tédio e de uma série de crises, vividas pessoalmente ou exibidas na imprensa.

E, para muitos de nós, a vida na era do lockdown consiste em buscar formas novas de fugir do isolamento, sem ficar de olho nas manchetes trágicas o tempo todo. O consumo de álcool cresceu 14% (17% entre as mulheres), em comparação com o ano passado, de acordo com um relatório publicado recentemente pela revista científica Jama Network Open.

Fabricantes de cigarros eletrônicos de maconha e cartuchos com a substância registraram um aumento drástico das vendas nos estados em que a maconha está legalizada. Porém a sensação de que a cronologia está bagunçada talvez não esteja apenas em nossa cabeça – ou melhor, realmente está. De acordo com os psicólogos, a monotonia extrema tem a capacidade de distorcer o tempo e misturar as memórias.

Quarentenas e bloqueios eliminam os “eventos de fronteira”, que normalmente dividem os dias, como capítulos de um livro. Sem pausas em uma rotina repetitiva, a mente tem dificuldade de diferenciar as memórias, algo que os psicólogos chamam de separação de padrões, segundo Lucy Cheke, psicóloga e professora da Universidade de Cambridge que pesquisa os efeitos causados na memória pela pandemia.

Não ajuda o fato de que boa parte da vida agora seja virtual e aconteça apenas diante das telas. Em vez de estimularmos nossos sentidos na vida real, fazemos videochamadas sempre que dá vontade, assistimos a muitas horas de programas antigos na Netflix e ficamos horas olhando as ofertas na Amazon.

Perdemos o chão, no espaço e no tempo. “Normalmente, há muita variedade na vida, e isso parece facilitar o processo. Se você almoçou na mesa de trabalho na segunda-feira, é fácil diferenciar esse evento de um café na terça-feira”, explicou Cheke. Se um lado do problema é que poucas coisas estão acontecendo na vida, o outro lado parece ser o fato de que, ao mesmo tempo, estão acontecendo coisas demais.

Algo impressionante a respeito deste ano é que ele não foi marcado por apenas uma crise, mas por uma pilha enorme delas: um vírus mortal se misturou com o caos político, a catástrofe ambiental e os conflitos raciais. A lista não para. “É um efeito dominó de acontecimentos que parecem não ter fim”, disse Alison Holman, professora de Enfermagem e Ciências Psicológicas da Universidade da Califórnia, em Irvine, que estuda os efeitos psicológicos de crises compartilhadas, incluindo a pandemia atual.

A sensação interminável de crise é “um fator estressante crônico e contínuo” que pode levar ao colapso daquela sensação reconfortante de que a vida se move de maneira ordenada: passado, presente e futuro, que são a chave para a estabilidade mental. Em vez disso, muitos de nós nos sentimos presos a um presente péssimo e com pouca noção do futuro. Sim, estamos fazendo menos. Sim, estamos nos preocupando mais. E, muitas vezes, estamos fazendo menos e nos preocupando mais sozinhos, longe de amigos, familiares e colegas.

O próprio isolamento também pode distorcer os dias, as semanas e os meses, afirmou Craig W. Haney, professor de Psicologia da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, que estuda os efeitos do isolamento em um de seus exemplos mais extremos: os presos que estão na solitária.

“Isso não quer dizer que essas privações sejam, de alguma forma, comparáveis às que muitos de nós enfrentamos neste momento. Não são. Mas mesmo as pessoas em confinamento solitário vão dizer que a essência dessa experiência é uma coisa que todos estamos vivenciando agora: a privação do contato social normal. E os seres humanos realmente dependem uns dos outros para estruturar a vida e nos dizer quem somos”, analisou Haney.

“Com o isolamento, seja ele relativo ou extremo, não existem, no tempo e no espaço, as âncoras psicológicas que as outras pessoas geralmente nos fornecem”, acrescentou Haney. É fácil ficar à deriva. E, para muitos, o isolamento causado pela pandemia também foi acompanhado por uma mudança geográfica – habitantes dos grandes centros que fugiram para os subúrbios ou para o interior, jovens que voltaram a viver com a família –, o que pode alterar a noção de tempo em uma escala ainda maior.

Isso talvez explique por que o jornalista gastronômico Eric Kim, que saiu de Nova York para viver com os pais em um subúrbio de Atlanta, passa tanto tempo pensando na sua coroa de rei do baile de formatura, que encontrou no armário do quarto no qual dormia na infância. “É muito irônico que isso esteja no armário, porque eu também estava no armário durante o ensino médio. Eu me sinto como se estivesse vivendo novamente no meu corpo de adolescente”, comentou Kim, de 29 anos.

Debruçado sobre o fogão, ao lado da mãe, como quando era jovem, preparando receitas para um livro sobre comidas caseiras coreanas, a sensação é de que o tempo está distorcido. “É difícil enxergar o futuro, pois o tempo se move muito lentamente. Sinto que estou aqui há um ano, mas estou em Atlanta há apenas três meses”, contou Kim.

Seja na devastadora gripe espanhola, de 1918, seja na crise atual, “as pandemias estragam nossa noção temporal”, disse Laura Spinney, autora do livro Pale Rider: The Spanish Flu of 1918 and How It Changed the World (Cavaleiro pálido: a gripe espanhola de 1918 e como ela mudou o mundo, em tradução livre), publicado em 2017.

Tanto antes como agora, a exaustão mental causada pela monotonia interminável levou algumas pessoas a decretar um fim artificial para a pandemia. “Acho que todos nós já estamos fartos de usar máscara e ter a vida interrompida. É isso que estamos vendo agora com a fadiga da Covid”, observou Spinney.

Essa é uma forma de lidar com uma pandemia em que o tempo parece ter perdido o sentido. A outra é simplesmente aceitar as coisas como estão. Para a futurista e documentarista Taryn Southern, de Los Angeles, a distorção temporal da pandemia de 2020 é estranhamente parecida com 2019, quando sua vida profissional foi interrompida por uma quimioterapia para combater um câncer de mama em estágio três.

“Não conseguimos saber se vamos acabar do lado bom ou do lado ruim do destino. É impossível fazer planos. Perdemos todo o senso de tempo e espaço porque ficamos doentes demais para interagir ou nos envolver com o mundo de maneira normal. Aprendi a aceitar a insanidade e assumir uma visão de mundo absurdista”, afirmou Southern.

The New York Times /O Estado de São Paulo