Os grandes óculos arredondados que escondem olhos azuis, mas não o olhar firme, o coque baixo no cabelo e a toga de juíza junto de um grande colar. Essa é a imagem de Ruth Bader Ginsburg estampada em capas de livros vendidos na loja dentro da Suprema Corte americana e também em broches, canecas, camisetas e cartazes por todo o país. Mais recentemente, passou a ser ainda a imagem que se vê nas telas de cinema dos Estados Unidos e, em 2019, uma das que vão ao tapete vermelho. A trajetória da juíza, ícone nos EUA na defesa de direitos das mulheres, é contada no documentário RBG, que disputa a estatueta do Oscar de melhor documentário neste ano.

Chamada de Notorious RBG – ou simplesmente RBG – a segunda mulher a ocupar uma das nove cadeiras no mais alto tribunal dos EUA, em Washington, atrai as atenções de uma popstar. Heroína, dissidente e musa são alguns dos adjetivos associados ao seu nome. Suas palestras em universidades são sempre aguardadas por uma legião de mulheres, advogadas, estudantes e ativistas que se inspiram no trabalho de Ginsburg.

Lançado em maio do ano passado nos EUA, o documentário sobre a trajetória da juíza de 85 anos chega ao Brasil em 2019, quando a vida de Ruth Ginsburg ganha as telas também em ficção: o longa Suprema, com foco nos primeiros anos da carreira da então advogada, estreia em março no País.

O documentário, dirigido e produzido por Betsy West e Julie Cohen, e o longa não se confundem, mas se complementam. O primeiro conta com a própria RBG em entrevistas atuais, cenas do seu dia a dia – como os treinos de musculação e o trabalho noturno em uma escrivaninha em seu quarto. Trechos do discurso da juíza ao Congresso americano na época da nomeação à Suprema Corte ajudam a fazer a retrospectiva da carreira da americana.

Já o filme, que tem Felicity Jones (foto)no papel principal, tem o potencial de levar a história a públicos não familiarizados com o tema. Na primeira cena do longa ficcional, Ruth aparece em meio a um mar de homens com ternos escuros marchando para o início das aulas na Faculdade de Direito de Harvard. Como uma das únicas nove mulheres em uma turma de quase 500 pessoas, no final dos anos 50, ela é convidada a um jantar no qual o reitor pergunta às jovens o que elas fazem ali “tomando o lugar de um homem”. A cena é verdadeira e contada também no documentário.

Dali para frente, Suprema éo caminho de Ruth Bader Ginsburg de resistência em uma era na qual Harvard e o mercado de trabalho não eram “lugar para mulheres”. No cinema, a plateia chega a aplaudir momentos em que Ruth, como mulher, vence barreiras. Com roteiro escrito por um sobrinho da juíza e direção da nova-iorquina Mimi Leder, o longa foca no início da carreira da aspirante a advogada e o primeiro caso que assumiu perante uma corte – também o único a dividir com seu marido e parceiro, Marty Ginsburg, advogado tributarista.

A frase que abre o documentário RBG é a mesma que aparece para fechar o filme Suprema. Apesar de ter autoria da americana Sarah Grimké, a fala é repetida como mantra por Ginsburg: “Eu não peço favor pelo meu sexo (gênero). Tudo o que peço aos nossos irmãos é que tirem os pés dos nossos pescoços”.

Com a primeira filha ainda no berço e o marido enfrentando o tratamento de câncer, ela assumiu em Harvard as suas aulas e as de Marty, passando as madrugadas na companhia de uma Olivetti. O marido superou a doença, conseguiu um emprego em grande escritório em Nova York e ela transferiu o curso de direito para a Universidade de Columbia. Mesmo com distinção nas duas universidades, a advogada passou a ser rejeitada pelos escritórios única e exclusivamente por ser mulher. Frustrada, Ruth se dedicou à carreira acadêmica e, na década de 70, com a efervescência dos movimentos civis nos EUA, passou a dar aulas sobre discriminação de gênero nas leis americanas.

Suprema mostra Marty (Armie Hammer) e Ruth como companheiros, o que a juíza não esconde de ninguém. “Ele foi o primeiro homem que conheci que se importou com o fato de eu ter um cérebro”, diz no documentário RBG.

Foi ele quem chamou a atenção da esposa para um caso de discriminação contra um homem, por uma questão tributária, o que gerou o enredo de Suprema. Ruth decide pegar o caso que enxerga como a porta de entrada para convencer o tribunal de que leis que diferenciam as pessoas em razão do gênero são inconstitucionais.

O ator Justin Theroux faz o papel de Mel Wulf, no filme o diretor legal da Aclu, a associação que luta pelas liberdades civis nos EUA.

No meio do caminho, desesperançosa, Felicity Jones protagoniza um dos momentos clímax do filme. Na chuva, Ruth vê sua filha, então com 15 anos, desobedecer a sua ordem e discutir na rua com trabalhadores de uma obra que assobiam enquanto as duas passam. “Mãe, você não pode deixar que caras falem com você assim!”

Os tempos, entende Ruth Ginsburg nesse momento, mudaram, e é isso que a fará tentar vencer no tribunal. RBG se tornou a fundadora do movimento pelos direitos das mulheres dentro da Aclu, contestando nos tribunais a legislação que, nas suas palavras, tentava manter as mulheres numa jaula. Em 1993, foi indicada pelo democrata Bill Clinton para a Suprema Corte e teve seu nome aprovado pelo Senado. O longa conta só uma parte da história da juíza, que chegará ao tapete vermelho pelo documentário produzido antes, com as cenas reais.

O ano é propício para reverenciar o trabalho da americana. Aos 85 anos, Ruth perdeu uma sessão da Suprema Corte pela primeira vez em janeiro, em razão do tratamento de um câncer – não é o primeiro que ela enfrenta. A ausência gerou especulações sobre a possibilidade de a juíza se aposentar, o que abriria caminho para Donald Trump fazer a próxima nomeação e deixar o Tribunal mais conservador. Ginsburg, uma juíza progressista, já criticou Trump publicamente. Depois se arrependeu do posicionamento que julgou que não deveria assumir e pediu desculpas. O tema é abordado no documentário. Seja ou não por resistência, Ruth já anunciou: “Enquanto eu conseguir fazer o trabalho a todo vapor, continuarei fazendo”.

Estadão Digital

 

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Sobre mim

Meu nome é Thereza Christina Pereira Jorge, sou carioca, mãe de dois filhos, jornalista. Fui repórter-editora nos jornais O Globo e sucursal Rio de O Estado de São Paulo. Trabalhei nas revistas femininas da Editora Bloch e na revista Isto É, também na sucursal. Sou formada em Ciências Sociais pela UFRJ. Este blog é muito biográfico porque estou descobrindo e praticando o que a OMS definiu como Envelhecimento Ativo. Amo a vida e o viver.