A Nova Velhice na Casa do Saber _ 1

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Boa tarde! Estamos aqui, novamente, na Casa do Saber, pela terceira vez para falarmos sobre este tema tão divulgado pela mídia de todos os países que saúdam os idosos contemporâneos como OS NOVOS VELHOS.

Eu mesma, achei por bem colocar este título, OS NOVOS VELHOS, no terceiro livro que escrevi sobre o assunto.

Por quê? Porque é um rótulo inventado pelo marketing que aliás governa, de algum modo a vida de todos nós, independente de classes e de nacionalidades, ditando cada vez mais as tendências, insinuando comportamentos ‘’novos’’, sugerindo estilos de vida ‘’novos’ também.

Mas NOVOS VELHOS ou seja, a NOVA VELHICE é uma realidade da nossa época para além de qualquer rótulo de marketing. Trata-se de um segmento que tem regras próprias, comportamento bem específico e características marcantes INÉDITAS na história da humanidade porque pela primeira vez na saga do homem e da mulher a longevidade está aumentando aceleradamente surpreendendo todas as expectativas da ciência.

O ENVELHECIMENTO GLOBAL CONTINUA SENDO E CADA VEZ MAIS É UM DOS MAIORES DESAFIOS DO SÉCULO 21.

São 800 milhões de idosos no mundo pelo mais recente RELATÓRIO SOBRE O ASSUNTO DAS NAÇÕES UNIDAS, de 2015. A expectativa é a de que serão DOIS BILHÕES EM 2050 ou seja, daqui a uma geração e meia vinte e dois por cento da população global será de idosos.

Se no pós-guerra dos anos 50, depois das terríveis perdas de 80 milhões de mortos durante a Segunda Grande Guerra Mundial, A CRIANÇA foi ‘’descoberta’’ pelo marketing, porque era e ainda é hoje um símbolo de renascimento, de renovação, e afirmação de esperança no futuro, a criança foi uma figura colocada numa perspectiva nova.

ERA A ’NOVA CRIANÇA’. Métodos de educação clássicos, antigos, foram postos de lado, à margem, na formação das crianças, e novas formas, primeiro alternativas, depois instituídas como libertárias e progressistas foram surgindo. Muitos de nós aqui devem lembrar o terremoto mundial que foi a divulgação dos métodos de educação e formação de crianças e de pré adolescentes na escola de Summerville, na Inglaterra, as polêmicas e as controvérsias, as críticas de que foi um alvo por conceder à criança uma liberdade imensa, no seu processo de aprendizado, e transformá-la em protagonista de sua própria história.

Summerville chegou a assustar espíritos mais acomodados e conservadores. Em seguida, e até como consequência desta radical transformação do símbolo e da representação da criança (AS ESCOLAS FILHOTES DE SUMMERVILLE SE PROPAGARAM PELO MUNDO E AQUI, NO BRASIL, FORAM E AINDA SÃO CENTENAS DE GRUPOS QUE ADOTAM MÉTODOS DE EDUCAÇÃO MAIS FLEXÍVEIS E SOBRETUDO CRIATIVOS, desde as creches até o ensino médio), como eu dizia, em seguida foi a representação dos JOVENS QUE ADQUIRIU NOVA ROUPAGEM.

Nos anos 60 e começo dos anos 70 a celebração da imagem dos moços e das moças em torno dos 20/30 anos foi impressionante. Movimentos maciços de jovens se insurgindo contra velhos métodos de se fazer política, por exemplo, e movimentos libertários espocaram no mundo ocidental com uma força como raramente se viu.

O MAIO DE 68, nas ruas de Paris, os movimentos de liberdade na Tchecoslováquia de Dubchek, a PRIMAVERA DE PRAGA, os jovens americanos se rebelando contra a guerra ao Vietnã e protestando nas ruas em gigantescas manifestações ou soldados bem jovens desertando e fugindo para o Canadá, foram todas manifestações nas quais o JOVEM ESTAVA ENTRONIZADO NO PODER.

O PODER ERA JOVEM, nos anos 60/70. A indústria da moda rejuvenesceu, criou a minissaia, Londres era uma meca dos jovens do mundo inteiro, com os Beatles. As discotecas apareceram e se multiplicaram, a indústria JOVEM se propagou com toda força e, como uma avalanche, também no Brasil, um país então ainda muito jovem e no Rio de Janeiro, especìficamente, uma cidade balneária descontraída, informal, alegre, dançante, com sol, mar e praia e onde o culto ao corpo era – E AINDA É – uma celebração e uma obsessão.

Rio, assim como Los Angeles, cidades jovens cujo cartão postal, nas duas, é a beleza do físico e o culto a ele sob todas as formas.

Quem foi jovem nos anos 60/70 no Rio de Janeiro viveu uma época dourada apesar da ditadura civil-militar pesada em cuja resistência se alinhou boa parte dos jovens trabalhadores, mas também de classe média.

Todas as indústrias ganharam muito dinheiro com esse culto ao JOVEM. Chegou ao ponto em que uma mulher ou um homem de 60/70 anos que gostasse de se vestir mais descontraído tinha dificuldade de encontrar modelagens, números de manequins maiores, nas lojas de roupas.

Nos anos 80 o panorama começou a mudar.

Era preciso encontrar um novo nicho de ‘’mercado’’. O processo do regime capitalista é como andar de bicicleta. Se parar cai. Tem que estar sempre em movimento descobrindo novas oportunidades de ganhar dinheiro.

Então, num primeiro momento, jogou-se no mercado a indústria do rejuvenescimento (que, aliás, perdura, é claro até hoje). A indústria da cirurgia plástica. Cirurgias plásticas, as primeiras com péssimos resultados, mas no Brasil e logo depois, no mundo, surgiu o ícone de Ivo Pitanguy.

As visitas das mais belas mulheres, Estados Unidos e Europa, que estavam envelhecendo, do cinema, das manchetes, do carrossel da fama, as bilionárias americanas e européias, vinham ao Rio, e os rastros e a herança que ele deixa são centenas de cirurgiões plásticos competentes que reforçam a ideia do país como o centro mundial da cirurgia plástica do rejuvenescimento.

Logo depois, as estatísticas apresentam uma curva ascendente da longevidade em todas as populações. No Japão e na França, os dois países com maior número de idosos com mais de 80 anos se multiplicam, em especial no Japão, os idosos centenários.

Uma alimentação melhor, mais racional, faz com que a longevidade esticada, no Brasil, atinja também as classes operárias e trabalhadoras.

Com a longevidade cada vez maior há também mais casos de diabetes, Alzheimer, hipertensão, artroses, artrites, doenças degenerativas. Um prato feito para a indústria farmacêutica. Um dos pontos de encontro, de manhã, dos idosos, em todos os bairros, é a farmácia do quarteirão ou uma das farmácias do bairro. O outro é a fila do banco.

A farmácia popular veio apoiar os idosos no que diz respeito á sua saúde.

Mas a saúde dos idosos está longe de ser bem tratada pelo estado brasileiro. O SUS não foi valorizado e fortalecido como deveria ter sido pois é um programa modelo e de enorme abrangência. Por outro lado, o sistema de saúde privada, que não é regulamentado pelo estado, oferece assistência muitas vezes sofrível e a preços altíssimos.

DE QUALQUER MODO, A LONGEVIDADE ESTICADA DO BRASILEIRO NÃO SE DEU APENAS ENTRE AS CLASSES MÉDIAS. As classes populares hoje vivem cerca de 20 anos a mais do que há uma geração apenas!

Outra grande novidade aqui no Brasil, está relacionada a dois aspectos muito importantes: O ENVELHECIMENTO ATIVO E A VIOLÊNCIA CONTRA OS IDOSOS que vieram no rastro do ESTATUTO DO IDOSO.

RELATÓRIOS FORAM DIVULGADOS DENTRO DA UMA REDE PÚBLICA DE PROTEÇÃO AO IDOSO BRASILEIRO, o Fundo nacional do Idoso, os Conselhos estaduais, braços do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso etc.

Em relação a essa violência, os números são impressionantes: a NEGLIGÊNCIA atinge a 68% dos idosos. Violência patrimonial, 40%. Psicológica, 53%. Os abusos financeiros são mais freqüentes e atingem idosos de mais de 76, 80 anos.

E O DADO QUE MAIS PERTURBA: METADE OU SEJA 50% DOS INFRATORES SÃO FILHOS E NETOS DOS IDOSOS.

E as MULHERES IDOSAS são as mais atingidas.

A conclusão: os idosos ainda são desrespeitados diariamente, desde quando entram num transporte público e jovens não se levantam doa assentos destinados aos mais velhos para ceder o lugar que ocupam indevidamente, até nas filas preferenciais, no tratamento dado nas calçadas (no Leblon, as bicicletas… e não são apenas funcionários de empresas de entregas e domicílio; são homens, em geral homens, mas também mulheres que estão se exercitando, vindo ou indo para a praia, circulando entre as pessoas que passam, nas calçadas que se transformam em ciclovias!!)

No caso do envelhecimento ativo as estatísticas também impressionam: 76% dos idosos brasileiros continuam trabalhando.

Outra novidade que se firmou de dez anos para cá é a chamada ECONOMIA SILVER OU O MERCADO MADURO. Agências de viagem, a indústria do turismo em grupos ou individual, restaurantes com alimentação diferenciada, mais leve, de bufê, e com preços promocionais, cujos cardápios têm em vista o segmento da população dos mais velhos, como por exemplo ocorre em Copacabana. Indústria dos cosméticos, as tinturas para cabelos (para homens inclusive). Roupas com vistas a essa idade em butiques elegantes e caras e em lojas de departamento, mais populares.

(As bulas de remédios muitas vezes são impressas com letras mais facilmente legíveis visando o público de idosos).

A venda de porções de produtos de alimentação que visam as pessoas que moram e vivem sozinhas. Neste segmento o número de homens e mulheres é imenso. Antes a família era o alvo.

As campanhas são agressivas, diretas, a concorrência entre as marcas é intensa porque a FIDELIZAÇÃO é a característica marcante do posicionamento do consumidor de mais idade.

A INDÚSTRIA DA TECNOLOGIA É OUTRA QUE TEM COMO ALVO FUNDAMENTAL PARA O SEU SUCESSO E SEU PROGRESSO O SEGMENTO DOS MAIS VELHOS.

HÁ CINCO ANOS SABIA-SE QUE VINTE POR CENTO DOS INTERNAUTAS TINHAM MAIS DE 50 ANOS.

E a indústria dos serviços de fisioterapeutas, as academias de ginástica, a indústria de vestimentas esportivas.

No entanto, o número de médicos geriatras para esse universo de 25 milhões de idosos brasileiros era ridículo até um ano atrás: apenas 900 geriatras estavam em atividade.

Este quadro se alterará bastante dentro dos próximos anos. O número de moças e rapazes, nas faculdades de Medicina que escolhem essa especialização cresce aceleradamente.

OS TRÊS TEMPOS DA VELHICE

1.A IDADE DA APOSENTADORIA

Uma fase inédita que pode prenunciar uma vida ativa e estimulante. ’’Depois que me aposentei nunca estive tão ocupada,’’ as pessoas dizem. Com saúde física e mental boas pode-se viajar, estudar o que antes não será possível, mas que sempre foi desejado.

Outras atividades: o voluntariado (aqui nem tão em prática como lá fora), a vida social.

Período vivido como uma nova chance. Uma forma de retomar projetos antes bloqueados por contingências familiares e/ou por exigências da própria atividade profissional.

Pode ser também um momento de preocupação. O isolamento de quem só se deixou orientar, a vida toda, pela vida profissional, que só viveu esse aspecto da vida como um todo ou quando a saúde ou a situação financeira não permitem mudanças neste sentido.

“O tempo da vida já não tem mais que ser administrado em função do tempo de trabalho, é o trabalho que deve encontrar seu lugar, subordinado, num projeto de vida.”//Andre Gorz em Metamosfoses do Trabalho //

2.A CHAMADA ‘’GRANDE IDADE’’

Pouco a pouco se percebeque o dinamismo da fase anterior não é mais o mesmo. O peso dos anos o limita. As preocupações com a saúde aparecem. É o momento em que a solidariedade familiar começa a se inverter. De indivíduos que ajudavam filhos, netos, sobrinhos, os mais moços enfim, são os mais moços que precisam ajudar o idoso. Um sentimento de perda de utilidade pode aparecer e se algum acidente ocorre ou uma moléstia da qual a pessoa sai sobrevivente, o perigo é o de ‘’ESCORREGAR’’ e se deixar levar. Não batalhando para subir a ladeira novamente.

3.A PERDA DA AUTONOMIA E A DEPENDÊNCIA.

Aqui, se trata de um processo, não de um estado. A pessoa não pode perder os laços com sua própria identidade, com a sua história. Em nome da proteção, às vezes os cuidadores, familiares, infantilizam idoso desta idade privando-o da sua liberdade. ESTE É UM DOS MAIORES DESAFIOS DA NOSSA ÉPOCA. RECONHECER QUE UM IDOSO SENIL CONTINUA SENDO, MESMO COM TODAS SUAS LIMITAÇÕES GRAVES UM SER HUMANO INTEIRO E ÍNTEGRO.

Outros tópicos:

TEMOS DEZESSETE MILHÕES DE APOSENTADOS. DEZ POR CENTO DELES RECEBEM VALORES MILIONÁRIOS. DUZENTOS MIL APOSENTADOS RECEBEM ENTRE TRÊS MIL REAIS E O LIMITE que hoje é de cerca de 5 mil reais.

O FATOR PREVIDENCIÁRIO REDUZIU EM 30% O VALOR DAS APOSENTADORIAS NO BRASIL. SEM ESSE FATOR O TETO HOJE SERIA DE SETE MIL REAIS. O FATOR FOI CRIADO NO GOVERNO DO PSDB. Luis Inácio da Silva prometeu eliminá-lo, mas não o fez. Ele existe até hoje.

HÁ ARGUMENTOS INDECENTES DE QUE OS ‘’VELHINHOS SÃO VAGABUNDOS.”
E QUE O PAÍS NÃO TEM COMO SUSTENTAR SEUS VELHOS.

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Se as dívidas ao INSS, das maiores empresas brasileiras, não fossem escandalosas…

Estudos atuais demonstram que não há rombos.

E com a terceirização, se ela se efetivar, será pior ainda a situação da Previdência.

Os trabalhadores não vão contribuir para uma aposentadoria que, sabem, nunca ocorrerá.

 Do. PRIMEIRO encontro da Série de quatro, A Nova Velhice

na CASA DO SABER

DIA 5 DE ABRIL DE 2017

 

Léa Maria Aarão Reis

Thereza Christina Pereira Jorge

Iniciamos com Viva com Beleza Envelhecimento Ativo há 10 anos. E estamos aprendendo a Arte de Envelhecer, e que Arte difícil! O site trata da descoberta do meu Envelhecimento Ativo. Consultoria em Envelhecimento Ativo [email protected] Meu nome é Thereza Christina Pereira Jorge, sou carioca, mãe de dois filhos, jornalista. Estudo há sete anos e Envelhecimento Ativo e escrevo sobre isso. Primeiro no blogue Viva com Beleza e agora no site Arte de Envelhecer. Fui repórter-editora nos jornais O Globo e sucursal Rio de O Estado de São Paulo. Trabalhei nas revistas femininas da Editora Bloch e na revista Isto É, também na sucursal. Sou formada em Ciências Sociais pela UFRJ. O site _ https://www.artedeenvelhecer.com.br _ é muito autobiográfico porque estou descobrindo e praticando o que a OMS definiu como Envelhecimento Ativo. Amo a vida e o viver. Tenho apreciado (às vezes) o meu envelhecer.

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