Aumento na expectativa de vida do brasileiro tem impacto em tabelas de prêmios de seguros, nas contas da Previdência Social e em políticas públicas

O que é, afinal, um idoso, essa condição que alguns preferem disfarçar por eufemismos, tipo “melhor idade”?

Há um ano, a Itália decidiu que, antes dos 75 anos, ninguém pode carregar essa carteirinha. A decisão foi acompanhada da observação feita pela Sociedade Italiana de Gerontologia e Geriatria de que “uma pessoa de 65 anos (idade em que então qualquer um se considerava idoso) tem a forma física e cognitiva de uma de 45 anos há 30 anos. E os que têm 75 têm as mesmas condições de quem tinha 55 em 1980”. Ou seja, quando dizia que “a velhice é um naufrágio”, De Gaulle se referia a gente mais jovem do que os velhos de hoje.

Há pouco mais de uma semana, a BBC de Londres argumentou que, para todos os efeitos, a velhice propriamente dita deveria começar aos 70 anos – e não mais aos 65, como agora. O argumento é o de que, na Inglaterra, quem chega aos 70 tem uma expectativa de vida de mais 15 anos.

E como fica o Brasil?

Nesta quinta-feira, quando divulgou sua Tábua de Mortalidade para o Brasil, o IBGE concluiu que, em apenas 12 meses (de 2017 para 2018), a expectativa de vida ao nascer do brasileiro aumentou três meses e um dia, uma enormidade para os padrões demográficos.

Apesar da mortalidade infantil no País e da exposição aos riscos correntes da juventude, quem nasceu em 2018 tem grande probabilidade de chegar aos 72,8 anos se for homem e aos 79,9 anos se for mulher. Se a expectativa de vida vem subindo nessas proporções, então dá para dizer que, na média, se for do sexo masculino, uma criança que nasce hoje viverá mais de 73 anos e, se for do sexo feminino, mais de 80.

Quem, por exemplo, chega aos 60, idade tradicionalmente conhecida no Brasil como o início do período em que alguém pode ser considerado idoso, pode chegar aos 78,8 anos se for homem e aos 84,3, se for mulher.

Esse avanço da expectativa de vida no Brasil tem muito a ver com a melhor qualidade da alimentação, com o avanço da medicina, com a democratização dos serviços de saúde e, apesar dos graves problemas ambientais e da falta de esgotos, tem a ver com certos progressos no saneamento básico.

O país onde a expectativa de vida atinge níveis mais altos é o Japão (84,4 anos), seguido pela Itália, Cingapura e Suíça (ao redor dos 83 anos), países conhecidos pela melhor condição dos cuidados destinados à população. Isso significa que o Brasil ainda tem chão para avançar, à medida que a qualidade de vida for melhorando.

Esse conjunto de números constitui muito mais do que meras curiosidades demográficas. Tem impacto importante nas tabelas de prêmios de seguros de vida e, obviamente, pesa dramaticamente sobre as contas da Previdência Social, na medida em que prolonga o tempo de aposentadoria e, portanto, as despesas do sistema com benefícios. E à medida que a população envelhece, mudam as políticas públicas para, por exemplo, menos creches e mais lar dos velhinhos.

Vigora hoje no Brasil a convenção de que, aos 60, as pessoas ganham o direito de receber uma bengala moral, digamos assim. Conseguem viajar de graça nos metrôs e nos ônibus urbanos, têm preferência no atendimento dos caixas dos bancos e dos supermercados e contam com faixa especial nos estacionamentos – além do direito a meia-entrada em cinemas, teatros e museus. Mas está aumentando tão rapidamente a população que passa dos 60, que até mesmo essas vagas preferenciais começam a faltar. Algumas companhias aéreas do Brasil só dão precedência a pessoas com mais de 80 e fazem questão de lembrar essa condição junto aos portões de embarque.

Ou seja, para o bem ou para o mal, idade avançada já não é apenas para um grupo seleto de indivíduos. Qualquer um pode chegar lá.

Celso Ming/Economia Estadão Digital

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