Memórias turvas em tempo da pandemia

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“É possível que as pessoas tenham memórias mais turvas de coisas que aconteceram durante a pandemia. Ao ficar muito tempo em casa, em chamadas de vídeo, é como se todas as experiências estivessem em um mesmo pacote dentro da memória”. Daniel Schacter, Professor e pesquisador da Universidade Harvard

À medida que os aparelhos eletrônicos ocupam mais espaço em nossas vidas, crescem as preocupações sobre os efeitos que a tecnologia pode causar na saúde mental das pessoas. U

Um dos questionamentos envolve a memória: os recursos digitais seriam capazes de alterar de maneira significativa a forma como nos lembramos das coisas?

Para Daniel Schacter, professor de psicologia da Universidade Harvard e um dos maiores estudiosos do tema na atualidade, a tecnologia pode nos distrair, mas é exagero dizer que ela está deteriorando nossas lembranças. “A tecnologia pode ser útil para a nossa memória, como as agendas digitais que nos notificam sobre compromissos”, afirma. Ele alerta, porém, que há perigos circulando pela internet, como a desinformação, que pode ser incorporada à memória das pessoas.

Schacter escreveu em 2001 o livro The Seven Sins of Memory: How the Mind Forgets and Remembers (Os sete pecados da memória: como a mente esquece e lembra, na tradução livre do inglês) e, no ano passado, lançou uma versão atualizada com novas informações, incluindo debates recentes sobre os efeitos da tecnologia na mente humana.

Em um dos estudos, o sr. trata sobre falsas memórias. Como a desinformação se encaixa nisso?

Existem razões para acreditar que notícias falsas que circulam pela internet podem ser incorporadas à memória, causando efeitos negativos como a criação de memórias falsas. Uma pesquisa interessante publicada há alguns anos discutiu isso, analisando a memória de eleitores em um referendo sobre a liberação do aborto na Irlanda, em 2018 – um dos resultados do estudo foi que as pessoas eram mais suscetíveis a formar falsas memórias em relação às fake news que se alinhavam com sua própria ideologia.

Na pandemia, mergulhamos completamente em aparelhos digitais. Como isso pode afetar nossa memória? Nossas lembranças de uma chamada pelo Zoom são as mesmas que teríamos de uma conversa realizada pessoalmente?

Não acho que a pandemia tenha afetado a nossa habilidade de armazenar informações, mas é possível que as pessoas tenham memórias mais turvas de coisas que aconteceram nesse período. Estar em diferentes contextos e configurações nos ajuda a segmentar experiências para lembrar delas posteriormente. Ao ficar muito tempo em casa, em chamadas de vídeo, é como se todas as experiências estivessem em um mesmo pacote dentro da memória, o que faz com que seja mais difícil lembrar das coisas. Mas isso não diz respeito à tecnologia em si, e sim ao fato de viver uma existência repetitiva.

Quais são os aspectos do smartphone que mais afetam a nossa memória?

Muitas coisas em um smartphone, como troca de mensagens e redes sociais, têm o potencial de afetar nossa memória. Já sabemos que o uso “multitarefa” (fazer várias coisas ao mesmo tempo) é um dos problemas mais graves. Como professor, olho para os meus alunos e muitos deles estão com dispositivos eletrônicos, talvez sem prestar atenção ao que eu estou falando. Isso causa distrações e afeta como a pessoa armazena informações.

Compacto do Estadão Digital 

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