Erundina: Os sonhos não envelhecem
A pandemia dá voz aos idosos com denúncias de falta de infra-estrutura das Instituições de Longa Permanência, mas a energia e convicção política de Luiza Erundina estimulam ações e a sobrevivência de idosas e idosos brasileiros

Notícias sobre os idosos – segmento da população que parece ser inexistente por parte da mídia corporativa – em plena covid-19 no mundo, e no Brasil, nas últimas semanas, em época de eleições. A recente informação oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciando dados de longevidade é modestamente positiva: aumentou 0,3% em relação a 2018 a taxa de estimativa de vida no Brasil. Do patamar dos 76,3 anos a longevidade, para os dois sexos, passou a 76,6 anos. O Brasil hoje conta com 30 milhões de idosos e com centenas de blogs, sites e portais destinados a informações e noticiário para esse segmento da população desatendido pelo governo.

Um desses sites, Arte de Envelhecer, registrou 21 mil acessos nas suas fanpages em setembro último; e eles continuam crescendo. Sua diagramação foi adaptada para celulares, dispositivo em geral mais usado por idosos, e onde as notícias são breves, concisas, dinâmicas e há muitos tags e vídeos.

”A pandemia está trazendo pautas e leitores”, diz a criadora e editora da página, jornalista Thereza Jorge Pereira, moradora do bairro de Copacabana, no Rio de janeiro e que o produz há nove anos. O conteúdo conta com diversas edições e com enfoques exclusivos no Instagram, Twitter e Facebook.

”Os perfis dos idosos são diferenciados”, diz Thereza. ”Viva com Beleza, fanpage do FB, é para os neo-idosos. O Arte de Envelhecer, para idosos assumidos. O Instagram divulga o Envelhecimento Ativo e o Twitter é utilizado para as manchetes”.

Outras notícias vêm de fora, da Espanha, que assim como os governos de vários outros países se (pré)ocupa com a saúde e o bem-estar de suas populações (ao contrário infelizmente do que ocorre Brasil). Um plano federal de vacinação ordenada acaba de ser anunciado com detalhes. Segundo o projeto a ser posto em prática daqui a pouco, as pessoas que vivem ou trabalham em lares de idosos, grupo duramente afetado pela covid-19, serão as primeiras a receber as vacinas que estarão disponíveis.

Ontem, na França, outro comunicado oficial: foram divulgados os primeiros estudos do esquema da vacinação em massa dos franceses. E os idosos, nos abrigos públicos e particulares receberão a vacina na frente. No Brasil, triste país, a omissão, a irresponsabilidade e o descaso do governo federal em relação aos mais velhos são gritantes.

No ambiente político brasileiro, que apesar das restrições do isolamento social se animou por conta das campanhas eleitorais no formato de redes sociais, foi grande o movimento de internautas idosos. O número de eleitores a partir dos 60 anos saltou dos 9,5 milhões, de 1992, para 30,2 milhões este ano. Dados do Tribunal Superior Eleitoral. Mas a abstenção é inédita, o que sugere um número imenso de mulheres e homens a partir dos 70 anos que não foram às urnas. Há dois anos, sem pandemia, um em cada quatro eleitores dessa faixa de idade já se abstivera de votar.

Mas há poucos dias, um vídeo da candidata a vice-prefeita de São Paulo, a deputada Luiza Erundina, que completa 86 anos hoje, dia 30 de novembro, viralizou e repercutiu fortemente Sua fala incisiva respondeu com firmeza às insinuações irônicas de que poderia – ou deveria – já ter se aposentado.

”Que se danem”! declarou bem alto Erundina. ”Estou vivendo meu tempo, minha saúde e inteligência, minha experiência. Estou fazendo mal para alguém? Não estou. E quero que mulheres com a minha idade também se sintam assim, que sejam contagiadas pela minha vivência e vontade de seguir trabalhando. E para aqueles que se sentem incomodados, desejo que tenham a sorte de chegar onde cheguei com a energia e convicção que tenho”.

” Sabe? Se você perde seu projeto de vida, tudo perde o sentido”, prosseguiu. ” E meu projeto de vida não termina no meu tempo. Meu projeto é sonhar com outro futuro”.

Sobre a reação de Erundina o professor de arte da Unicamp Jorge Coli, 73 anos, autor de O Corpo da Liberdade, escreveu: ” O papel de Erundina nesta campanha é extraordinário. Ela atropelou todos os preconceitos. Sua alegria vigorosa, sua energia, sua inteligência brilhante estimulam tanto o velho desencantado quanto o jovem blasé”.

Já o projeto da jornalista Thereza Jorge Pereira, ao construir o seu site, ocorreu por uma necessidade dela de se informar e entender o seu próprio envelhecimento que via com ”muito preconceito”. ”O site possibilita uma elaboração do envelhecimento meu e das pessoas. É terapêutico”. E continua:

” Uma coisa que tenho percebido é que não existe um tipo de idoso. São inúmeras tribos. Alguns resistem mais ao processo de envelhecer. Outros já assumiram a idade com todos os colaterais. Não lutam por modificá-los. ‘Me deixe envelhecer em paz’, dizem. E há os conscientes. Esses sabem que a proposta do conceito de Envelhecimento Ativo da Organização Mundial da Saúde é séria e deve ser praticada para uma longevidade saudável”.

Thereza acredita que, ”sem dúvida, a pandemia deu foco e voz aos idosos brasileiros mesmo que através de denúncias sobre violência e falta de infra-estrutura das ILPIs, as Instituições de Longa Permanência, os antigos asilos”. Ou ”morredouros” como alguém lembrou.

A jornalista ressalta que 75% dos brasileiros mais velhos, moradores de Copacabana (região com uma das maiores densidades demográficas de idosos no mundo) usam o SUS e os postos de saúde.” Considerando o conjunto dos mais de 5 mil municípios onde há serviço público gratuito e universal, Copacabana é um oásis, ”mesmo que esteja em decadência”, lembra Pereira Jorge.

A mídia internacional, mês passado, noticiou o que se passa com as mulheres idosas alemãs. Os atos públicos regulares, de protesto, começam a chamar a atenção. Dezenas de avós ativistas se reúnem na Alexanderplatz, em Berlim, denunciando o avanço da extrema direita no mundo, associado, segundo elas, à crise do capitalismo que gera desigualdades extremas e alimenta problemas sociais. Atualmente há mais de 50 avós registradas no grupo. E além de crescer na capital alemã, essa iniciativa de Avós Contra a Extrema Direita já se encontra presente em mais de 70 cidades do país.

Segundo essas mulheres, os governos não estão enfrentando questões socioeconômicas e ecológicas de forma adequada. E as avós declaram que percebem semelhanças entre o momento atual e a Alemanha de 1933, de Hitler, quando a grande maioria delas eram crianças ou adolescentes. Elas lembram que se trata de um mesmo modelo utilizado pela extrema direita em vários países. ”Sermos ativas ajuda a fazer oposição a esse estado de coisas preocupante e é uma válvula de escape para os medos que enfrentamos”, diz uma das líderes do movimento, de 68 anos.

No Brasil, as avós de famílias pobres das periferias das grandes cidades são ativas, mas de outro modo. Foi identificado por exemplo em uma recente pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) que crianças que moram com as avós, nas favelas, frequentam as escolas com maior assiduidade. E que dois terços dos municípios brasileiros têm como sua maior fonte de renda as aposentadorias dos avós de cada família. No programa Work Life, da BBC Brasil, a jornalista Mari Shibata comentou com toda propriedade: os jovens podem estar preparados para herdar o futuro, mas é o envelhecimento da população que está definindo o nosso tempo de agora.

Pela primeira vez na história da humanidade, em 2018 o percentual de pessoas com 65 anos ou mais ultrapassou aquele de crianças com menos de cinco anos no mundo. E a previsão é que o número de indivíduos com 80 anos ou mais triplique. De 143 milhões em 2019 para 426 milhões em 2050.

Portanto, a atuação emocionante de uma Luiza Erundina levando seus projetos debaixo do braço reforça e confirma toda essa movimentação – apesar dos pesares. ” O meu sonho, de uma sociedade socialista, fraterna e igualitária, infelizmente não vai acontecer no meu tempo; tenho consciência disso. Mas se eu não fizer minha parte agora, esse modelo de sociedade não vai acontecer nunca. A velhice não é doença, não é defeito, a velhice não impede o sonho. Portanto, o sonho que me move, em relação às transformações que a sociedade precisa, não envelheceu. Luto por uma sociedade socialista, fraterna e igualitária. Esse sonho não vai envelhecer nunca”, ela avisa.

Fustigados duramente pela pandemia e sua vulnerabilidade diante dela, pela constatação de que a sua própria velhice será, daqui para a frente, objeto de preocupação sanitária urgente e permanente, e pela criminosa desatenção do governo federal e em particular do Ministério da Saúde, os idosos brasileiros com mais de 60 anos representam 74% das mais de 100 mil mortes pela covid-19 desde março último neste país.

A doença e a morte os atingem perigosa e diretamente. ” Os idosos e as idosas são os primeiros a perderem o emprego por pertencerem ao maior grupo de risco de contrair a covid; e abandonam o trabalho com medo da doença ou são demitidos por preconceito do empregador”, anota Ana Amélia Camarano, pesquisadora do IPEA.

Léa Maria Aarão Reis/ Carta Maior

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