Comunidade solidária “remove”montanha

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Aos 70 anos, Linda Taylor mora há mais de 20 em uma casa em Powderhorn Park, a poucos quilômetros do centro de Minneapolis, nos EUA. Linda era dona da casa até a crise imobiliária de 2008. Vítima de um golpe, ela perdeu a posse e, desde então, aluga a casa.

No começo do ano, ela recebeu um aviso de despejo. O dono deu a ela a opção de comprar a casa por US$ 275 mil, ou dois meses para sair. “Parecia que o mundo tinha sido puxado de baixo de meus pés”, disse Taylor. “Minha casa é o mundo para mim.”

ONG. Linda trabalhou em uma organização local sem fins lucrativos por quase três anos antes de ser demitida durante a pandemia de coronavírus. Ela perdeu seu salário, mas continuou pagando o aluguel – cerca de US$ 1.400 por mês – usando suas economias, dinheiro da família e subsídios do governo.

Quando o proprietário da casa, Greg Berendt, disse a ela para desocupar o imóvel porque pretendia vendê-lo, seu mundo caiu. “Foi como levar uma pedrada. Eu não conseguia dormir, não conseguia comer”, disse Linda, que mora sozinha na casa de dois quartos. “Eu me senti realmente derrotada.”

Linda disse que, apesar de sua angústia, ela estava determinada a ficar. “Vou fazer algo a respeito”, lembrou-se de dizer a si mesma. “Esta é a minha casa.”

AJUDA DOS VIZINHOS. Como moradora que, além de serviços comunitários, também mantém uma biblioteca gratuita no jardim da residência, a notícia não foi bem recebida pelos vizinhos, que decidiram se juntar para garantir que Linda continuasse morando ali.

Segundo uma vizinha, a comunidade já tinha uma mobilização pré-organizada em razão dos protestos contra a morte de George Floyd, homem negro morto por asfixia após um policial branco apoiar o joelho sobre seu pescoço por quase 9 minutos. “Temos um grupo de bairro local ativo, porque estamos a dois quarteirões da George Floyd Square. A infraestrutura estava lá, a linha de comunicação estava lá, as relações de vizinhança estavam lá”, disse Andrew Fahlstrom, que mora na mesma rua que Linda e ajudou a levantar o dinheiro.

CAMPANHA. Inicialmente, os moradores do bairro fizeram um apelo a Berendt para evitar o despejo: conseguiram a garantia de que ela continuaria morando na casa, contando com a possibilidade de compra até o dia 30 deste mês.

Para isso, o senhorio abaixou o valor da venda e a residência poderia ser arrematada por US$ 250 mil, ainda fora do alcance de Linda.

Foi quando os esforços se voltaram para uma ampla campanha para angariar fundos. Para que a quantia total fosse arrecadada, os moradores organizaram campanhas nas redes sociais, festas no quarteirão e uma feira de arte (até mesmo com obras pintadas pela própria Linda). Assim, foram somando os valores.

O site de campanha e uma página de arrecadação de fundos trouxeram doações que iam de US$ 5 a US$ 15 mil. Boa parte da quantia veio da doação de uma igreja, que bancou US$ 200 mil.

RAPIDEZ. Em apenas quatro meses, a população de Powderhorn Park arrecadou US$ 275 mil para Linda Taylor – o suficiente para que ela pudesse comprar sua casa e cobrir ainda os reparos. Quaisquer fundos adicionais serão destinados a pagamentos de serviços públicos no bairro.

“Quando isso aconteceu, minha fé ficou maior que uma montanha. Eu sabia que meus vizinhos me amavam, mas não sabia o quanto”, disse Linda.

Em 31 de maio, um mês antes do prazo de seu senhorio, Linda comprou sua casa. Depois de quase 20 anos, a casa finalmente era dela. “Quando (o imóvel) é seu, ele dá a você um tipo diferente de sentimento”, disse ela. “Estou segura, porque agora tenho uma casa.”

Querida pelos moradores, Linda sempre fez serviços comunitários e mantém biblioteca em seu quintal

FESTA NO QUINTAL. Considerada a “prefeita” da comunidade pelos vizinhos, Linda planeja continuar fazendo churrascos no quintal, noites de cinema e barracas de limonada com seus netos. Ela está determinada a devolver todo o esforço de sua comunidade. “Estou aqui para ajudar a próxima pessoa e a próxima pessoa e a próxima pessoa”, disse. •

O Estado de São Paulo

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