O mundo dos 8 bilhões: só para os democratas

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‘A alta probabilidade de novas pandemias e as doenças crônicas e degenerativas, associadas ao envelhecimento populacional, são apontadas pelos especialistas como alguns dos desafios a serem enfrentados nos próximos anos. A mudança de perfil da saúde pública é uma das consequências do aumento da expectativa de vida da população mundial, que acaba de atingir a marca de 8 bilhões, informa Leon Ferrari. O investimento em vigilância epidemiológica e vacinas, a adoção de práticas que levem a um envelhecimento saudável e infraestrutura para atendimentos de alta complexidade são considerados como necessidades. Enfrentar desigualdades de acesso ao sistema de saúde e lidar com a crise climática também são vistos como temas urgentes.

A população mundial chegou ao marco dos 8 bilhões e não para de crescer, mesmo que com velocidade reduzida, segundo as Nações Unidas (ONU). Ao mesmo tempo em que o aumento da expectativa de vida e a redução da mortalidade, principais razões do incremento, sejam conquistas da Medicina, a humanidade com esse tamanho impõe mais desafios para a saúde pública. Especialistas preveem risco maior de novas pandemias e elevação na quantidade de doenças crônicas e degenerativas, associadas ao envelhecimento populacional.

Isso, porém, não é motivo para pânico, explicam, mas sim uma oportunidade de preparar-se para garantir o bem-estar dos habitantes na Terra. Eles defendem a necessidade de se investir em vigilância epidemiológica e vacinas, bem como promover práticas de envelhecimento saudável e infraestrutura para atendimentos de alta complexidade. Enfrentar desigualdades de acesso ao sistema de saúde e lidar com a crise climática também são temas urgentes.

Segundo Marcia Castro, professora da Escola de Saúde Pública de Harvard (EUA), o tamanho populacional – por mais que importe – não é um problema em si. “Tudo tem a ver com o contexto em que esses bilhões estão inseridos e o comportamento que eles têm”, destaca ela, que é doutora em Demografia.

Ao passo em que nos encaminhamos para o quarto ano da pandemia da covid-19, novas epidemias são esperadas pelos cientistas. Isso tem alguns porquês. Primeiro, o mundo está extremamente conectado, vide a rápida expansão do novo coronavírus, que surgiu na China, mas rapidamente se espalhou pelo mundo todo.

“É preciso antever e se preparar para o problema. Seria ideal ter rede global de vigilância epidemiológica, o que exigiria que países ricos se comprometessem a equipar os pobres”

A questão do migrante Especialistas preveem pressão tremenda sobre os sistemas de saúde pública e assistência médica. Além disso, é muito provável que essa nova crise sanitária tenha origem em uma zoonose (doença infecciosa transmitida entre animais e pessoas).

Está cheio de vírus em vários animais. Isso é normal. Mas na medida que o ser humano chega perto da floresta, ou para construir ou para desmatar, tudo o que você precisa é que aconteça um evento infeliz para o ser humano, mas muito bem-sucedido para o vírus, que faz o pulo de entrar no corpo humano e conseguir se reproduzir”, explica Marcia.

DENSIDADE. O tamanho populacional também apresenta implicações conforme a densidade populacional cresce. Se, em 1950, havia 19,17 pessoas por quilômetro quadrado; no ano que vem o número será de 61,7, e em 2100, 79,36 (aumento de 313%). A realidade é bastante desigual entre os países.

“Você tem áreas onde a densidade é muito grande, pessoas moram em habitações sem boa infraestrutura, sem ventilação, sem acesso à saneamento, sem acesso à água, várias pessoas numa casa só. Essas são as condições ideais para você ter transmissão muito rápida de uma doença infecciosa”, alerta Marcia.

A gravidade das novas epidemias e pandemias vai depender, claro, das características do vírus, mas também da nossa capacidade de antever e nos preparar para o problema. Seria ideal ter rede global de vigilância epidemiológica, o que exigiria que países ricos se comprometessem a equipar e treinar os mais pobres.

Ao Estadão, o médico americano Christopher Murray, professor da Universidade de Washington e diretor do Institute for Health Metrics and Evaluation (que também faz projeções populacionais), destaca a necessidade de investir no desenvolvimento de vacinas e medicamentos para classes de vírus que sabemos que podem apresentar risco.

“As pessoas (já) propuseram um imunizante mais geral contra o coronavírus ou uma vacina que funcione contra todas as formas de gripe. Esses investimentos podem nos deixar mais seguros no futuro”, diz. A própria vacina anticovid desenvolvida pela Universidade de Oxford (Reino Unido) em parceria com a farmacêutica AstraZeneca, por exemplo, aproveitou a base de pesquisas de um imunizante para outro coronavírus.

UM FUTURO MAIS IDOSO. Ao mesmo tempo, a tendência de envelhecimento da população implicará diretamente no volume de doenças crônicas, como câncer e hipertensão, e degenerativas, Alzheimer, por exemplo. As Nações Unidas esperam que haja 1,6 bilhão de idosos em 2050 – 16% dos moradores da Terra. Se, por ora, pessoas com 65 anos ou mais representam cerca de 10,2% do Brasil, a mesma taxa deve ser de 33% em 2100.

“Em nossas previsões, o número de pessoas com essas doenças aumenta dramaticamente, porque há muito mais pessoas nessas faixas etárias”, fala Murray. “As taxas, por pessoa, nas faixas etárias mais velhas, estão subindo para condições como obesidade, diabete, mas ainda estão caindo para doenças cardíacas, porque há menos fumo, há algumas melhorias na pressão arterial e no colesterol. Portanto, é uma questão mista”, afirma.

Obesidade e sobrepeso — fatores de risco para várias doenças — são uma grande preocupação dos especialistas, que classificam a prevalência das condições como epidemia. Segundo estudo publicado na revista Scientific Reports, um em cada três adultos no Brasil deve estar obeso em 2030.

A preocupação se ancora no entendimento de que envelhecer não é sinônimo de doença, mas o bem-estar destes idosos está intimamente ligado ao estilo de vida de cada um. Os especialistas destacam a necessidade de políticas públicas de promoção do que chamam de “envelhecer saudável”. “Temos sempre que dissociar o envelhecimento de uma coisa ruim porque pode ser boa, depende muito das condições que a pessoa vive”, fala Claudia Kimie Suemoto, professora associada da disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

“O envelhecimento saudável resulta naquele idoso que, não é que não tenha nenhuma doença, mas é independente, autônomo, toma decisões, participa da sociedade. E ainda tem um propósito de vida”, acrescenta. Segundo Claudia, não há “segredo” para atingir esse resultado. “Muita atividade física; alimentação saudável, que é rica em vegetais, verduras, legumes e proteína; evitar fumar; evitar beber em excesso; ter uma atividade que seja prazerosa pra você, em termos produtivos; e engajamento social”, enumera.

Mesmo assim, é preciso se preparar para lidar, principalmente, com esse idoso que não teve uma vida saudável. Claudia destaca a necessidade de investir em infraestrutura para atendimentos de alta complexidade e em políticas de cuidadores, para aqueles que perderão autonomia e capacidade de tomada de decisões.

Considerando que o atendimento a pessoas mais velhas é multidisciplinar, enfatizar o ensino de geriatria e gerontologia nas grades curriculares de escolas de saúde também está entre as necessidades. “O geriatra ficará com o cuidado de alta complexidade. Todos os médicos, independentemente da especialidade, têm de ter algum treinamento em geriatria.”

A adaptação do sistema de saúde precisa ser acompanhada com uma remodelação também da sociedade. Rosemarie Andreazza, professora associada do Departamento de Medicina Preventiva e do Laboratório de Saúde Coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pede foco no desenho de políticas societárias, de previdência, convivência, mobilidade urbana e trabalho. “É uma cultura de cuidado para o envelhecimento”, explica.

É preciso lembrar também que os desafios de saúde relativos à juventude e à mortalidade infantil, por exemplo, não desaparecerão com o envelhecimento da população. Tudo isso terá custo alto, diz Marcia Castro, mas não impossível de arcar, desde que as autoridades definam prioridades.

CRISE CLIMÁTICA. O futuro da saúde pública também é atravessado pela crise climática. A Organização Mundial da Saúde (OMS) explica que a mudança climática afeta os determinantes sociais e ambientais da saúde – ar puro, água potável segura, comida suficiente e abrigo seguro –, e, com isso, estima, entre 2030 e a metade do século, 250 mil mortes adicionais por ano por causa de desnutrição, malária, diarreia e estresse térmico.

Para além do excesso de mortes, Christopher Murray acredita que haverá incremento nas migrações – sejam internas ou internacionais –, conforme algumas localidades fiquem quentes demais para se viver. “Haverá uma pressão tremenda sobre os sistemas de saúde pública e assistência médica nos locais para onde os migrantes se mudarão”, alerta.

Boa parte do crescimento será puxada por nações menos desenvolvidas. A África Subsaariana deverá responder por mais da metade do crescimento da população mundial entre 2022 e 2050, segundo a ONU. Aplacar as desigualdades de acesso à saúde precisa estar na mira de organizações internacionais, frisa Rosemarie. Para se ter uma ideia, segundo as Nações Unidas, em outubro, estimava-se que só 24% do continente africano havia completado a etapa inicial da imunização contra a covid, comparada à cobertura de 64% no mundo. Esse desnível na cobertura vacinal eleva o risco do surgimento de novas variantes.

Países mais ricos e/ou com melhores resultados em saúde não podem se satisfazer com o bem-estar regional, diz Rosemarie. “Enquanto não tivermos um mundo bom para todo mundo, ele não consegue ser bom só para alguns. Você vai viver sempre numa bolha, escondido entre muros? O vírus ultrapassa muros, o mosquito da dengue ultrapassa muros”, alerta ela.

“Quanto mais a gente produzir democracia, quanto mais a gente entender que o mundo pode ter oito bilhões de habitantes que vivam de forma mais harmônica, entendendo os vários mundos que nos compõem, mais saúde a gente vai ter”, completa.

O Estado de São Paulo

 

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